Por Gabriela L Moncau
Praça da Sé. Um homem alto, de terno cinza e gravata, falando alto e chamando atenção, dentro de um quadrado de giz pintado no chão. Bíblia na mão.
“Isso não é heresia não, eu sou o bispo da palavra de deus! Quando você tem coração aplicado e sincero à Jesus, ele responde à sua oração! As portas só vão abrir na sua vida quando você tiver crença e fé em Cristo! Aleluia!”
Em torno do quadrado de giz umas 25 pessoas assistem concentradamente o homem. Um mendigo deitado ao lado, bêbado, às vezes acorda, às vezes volta a dormir. Está sujo e descalço e o sol do meio-dia a pino começa a esquentar o ambiente embaixo de um céu azul e limpo. Um dos homens que está ouvindo o evangélico falar, usando um boné verde, se aproxima do mendigo e deixa ao lado dele um pé de sapato. Em seguida, volta para a roda e continua atento a ouvir o que lhe é falado, muitas vezes completando com “aleluias” e “deus seja louvado”.
“Jesus é misericordioso, ele deu o caminho!” continua a gritar o evangélico “Jesus é a porta verdadeira! Há muitas portas, o das drogas, o da prostituição, mas a porta verdadeira é da igreja evangélica! Sem Jesus Cristo o homem não é nada, ele é a única salvação!”
Ao mesmo tempo em que essas palavras são pregadas, um menino passa em volta da roda, distribuindo um panfleto da Bola de Neve Church, no qual estava escrito: Você quer felicidade, paz, saúde e família unida? Jesus é a salvação.
O homem de boné verde que havia dado um sapato para o morador de rua começa a se afastar da roda e sai andando pela Praça da Sé, se distanciando da Catedral. Fui conversar com ele. Chama-se Maurício Ribeiro de Salles e mora em Santo Amaro. Perguntei sobre a religião evangélica, sobre suas crenças e fé. “Olha menina, eu não acredito em nada que esses caras falam não. Se eu te dissesse outra coisa eu seria um mentiroso. Sou cabá da peste, baiano de salvador. Não sou dessa religião, não acredito na igreja evangélica, mas também não sei no que eu acredito não. Você, menina, você trabalha e ganha, eu não ganho nada. Tenho só um carrinho de pobre, de pobre mesmo, não tenho nada a perder. Eu tô assim porque eu quero, mas eu não tenho nada a perder então eu paro e escuto. Por quê eu não vou escutar uma pessoa falando em deus? Mas não sei nada, se eu te dissesse outra coisa eu seria um mentiroso.” Virou-se, andou um pouco e entrou em um bar.
O pregador, depois de algum tempo, encerrou sua fala e pediu contribuição à sua platéia e pessoas passando na rua. Entre algumas moedas e notas, percebi uma nota de vinte reais ser recolhida. Agradeceu a todos e enquanto pegava uma maleta e arrumava suas coisas, se dispôs a responder algumas perguntas à nós, estudantes da PUC.
Perguntaram se ele não se sentia constrangido de aceitar dinheiro de pessoas de fé, porém que muitas vezes estavam contribuindo com o dinheiro que compraria a única refeição do dia. Ele disse que não, pois ninguém era obrigado a colaborar, as pessoas só obedeciam ao coração e que ele estava orgulhoso e satisfeito por trazer as palavras de Jesus para quem quisesse ouvir. Em relação à vestimenta, explicou que o terno e a gravata serviam para ganhar credibilidade, apesar de que muitas vezes, seu público já era conhecido e frequente.
Muito difícil fazer a distinção do pregador ser uma pessoa de tal fanatismo religioso a ponto de tornar-se imune ao olhar crítico de todos em volta ou se é mesmo uma espécie de picaretagem e o homem utiliza disso para sustentar sua sobrevevicência. É necessário também levar em conta que os pregadores arcaicos e tradicionais não pediam contirbuição financeira ao final da fala.
Um dos pressupostos da teoria marxista é de que “a religião é o ópio do povo”, por alienar e mascarar a realidade. Marx acusa a religião de manipulação, de sempre ter sido aliada ao poder das elites dominantes e de ser um mecanismo de controle e coesão.
Enquanto isso, para Max Weber todas as sociedades estão em processo de desencantamento da religião e de misticismos, para dar lugar à valorização da razão lógica e da reflexão em cima da realidade concreta.
Weber errou, e o que acabou por se dar foi o desencantamento com o próprio mundo. São poucos os que suportam viver no sistema capitalista pós-moderno apenas na racionalidade. Quando não se tem onde morar ou o que comer, o desespero necessita de uma esperança confortante, um apoio, uma fé e então se baseiam na religião como algo que os sustente em pé.
Durkheim, grande estudioso da sociologia moderna, ressalta o importante papel da religião no papel de coesão social dos indivíduos. Difícil aguentar o modo como se vive sem se identificar e ter algo em comum com outras pessoas, viver em comunidade, e juntar-se a grupos. É um dos importantes pontos da religião na sociedade pós-moderna, e um dos argumentos para a tese de que é impossível que a religião um dia seja extinta, por ser uma necessidade humana.
Revoltante, porém, o abuso que grandes nomes, organizações e igrejas fazem da fé da população. Entre muitos, destaca-se Edir Macedo com a Neopentecostal Igreja Universal do Reino de Deus. Como lutar contra a manipulação e o abuso de uma cega fé que por mais alienada que seja, acaba se tornando a única esperança de muitos para suportar o desigual e revoltante mundo que vivemos?…


