Por Danilo Mekari
Brasileiros, já passamos por uma crise energética, e pelo visto jogamos sua semente para o lado. E não é que ela brotou e cresceu em nossos vizinhos? Levou anos para a Argentina ser premiada pela falta de projeto sobre reservas energéticas, e que nós não zombemos deles, afinal já fizemos exatamente a mesma besteira.
Além disso, os argentinos estão nos alcançando em outro quesito: o número de escândalos sobre suposta corrupção – ou, melhor ainda, no descobrimento deles. Dizem as más-línguas que já estamos empatados. Com muitos gols para cada lado.
Em terras tupiniquins, o gado supostamente vale uma fortuna e o dólar é encontrado na cueca; no vizinho, há milhares deles em um banheiro de gabinete e numa maleta estrangeira.
Mas é claro que há diferenças. Nossos “hermanos” estão em ano de eleições presidenciais e pouco mais de dois meses para o primeiro turno. Se o atual presidente Nestor Kirchner não terá participação no pleito, até que ponto denúncias de governo corrupto mudariam o rumo das votações?
Simples. O sobrenome Kirchner estampa o folheto partidário de um candidato ao maior posto da nação. Ou melhor, de uma candidata que, se eleita, insistirá em ser chamada de presidenta – com “a”, pois para ela a conjugação no masculino é um “resquício de machismo”.
A primeira-dama Cristina Fernández de Kirchner é favorita para assumir a Casa Rosada e pode levar a bolada mesmo no primeiro turno. O que ninguém sabe ainda é a repercussão dos escândalos no seu eleitorado.
Baseando-se no passado recente de Lula – em 2005, quando foi denunciado o mensalão –, Cristina pode ficar (um pouco mais) tranqüila: se nenhuma denúncia acusá-la diretamente, ou a seu marido, o eleitor não vai demonstrar sua indignação no voto.
E o que tem tudo para deixá-la menos tranqüila é o calendário. No caso brasileiro, o eleitor teve um ano para se esquecer dos problemas do governo. Os 365 dias entre a crise e a eleição foi um bom intervalo para todos esfriarem a cabeça, mas dois meses são quase nada.
É importante ressaltar as diferenças do sistema eleitoral argentino em relação ao nosso, e na teoria o candidato eleito no primeiro turno não tem necessariamente o voto de mais da metade da população, visto que são precisos 45% para se eleger.
As pesquisas contradizem, porém, a necessidade do medo por sucessivos escândalos em ano eleitoral – Cristina aparece com 47% das intenções de voto, demanda suficiente para conquistar seu lugar ao sol.
E qual cidadão brasileiro duvida que ao apertar a tecla um, seguida da três, nas eleições presidenciais de 2010, aparecerá a foto de uma Marisa Letícia mais maquiada do que nunca?
Banheirogate
No dia 24 de junho, seguranças do ministério da Economia faziam uma inspeção rotineira quando encontraram uma bolsa de papelão cheia de dinheiro – entre dólares, pesos e euros, totalizavam US$ 241 mil – no banheiro do gabinete. E esse foi o primeiro passo para a Argentina se afundar em um mar de denúncias e escândalos.
A ministra titular da pasta, Felisa Miceli, alegou que o dinheiro encontrado era para uma transação imobiliária que não deu certo. Inevitavelmente, a Justiça iniciou uma investigação. E, pelo visto, sumiu dinheiro pelo ralo: a ministra declarou que havia US$ 64 mil na mala.
Como, se a soma de seus bens não passam de US$ 26 mil?
É lógico que a oposição não perdeu tempo e pediu a renúncia da ministra. E mais lógico ainda é o governo afirmar que não existem motivos para tal. Miceli garantiu que apresentaria documentos à Justiça que comprovariam que o dinheiro não passava de um empréstimo do seu irmão.
E, vai saber, os documentos devem ter sumido pelo ralo também: a ministra renunciou no dia 16 de julho sem dar explicações.
Nova denúncia, novo ministério
Três dias após a renúncia de Felina Miceli, outra suspeita de corrupção aflorou em terras argentinas. A ministra da defesa, Nilda Garré, rapidamente tratou de diferenciar-se da ex-colega Miceli, que demorou a dar explicações públicas quando descoberta a mala no banheiro, e falou à imprensa no mesmo dia em que saiu a denúncia envolvendo seu nome.
“Não vou me complicar nem tenho nada que esconder”, disse a ministra. Ela foi chamada para prestar declarações sobre acusação de contrabando de armas para os Estados Unidos. Negou qualquer tipo de ligação com o esquema.
A causa teve início quando foram travadas 6.700 peças de fuzis na Alfândega, que seriam vendidos por US$ 2,6 mil a uma empresa sediada em Connecticut, nos EUA, do argentino José Luiz Díaz. É um valor ínfimo para tamanha quantidade de armamento.
Em entrevista, citou a “campanha suja” que a oposição vem supostamente fazendo para armar as denúncias contra funcionários do governo e não negou o subfaturamento das armas. “Mas isso excede minhas competências como ministra”, explicou.
Enquanto isso, a secretária do Meio Ambiente, Romina Picolotti, foi acusada de nepotismo.
Contas suíças
O jornal de oposição “Perfil” revelou que até hoje mais de US$ 500 milhões não foram repatriados à província de Santa Cruz pelo governo – Kirchner governou-a por 11 anos e até hoje é controlada por ele.
Esse dinheiro, proveniente da exploração petrolífera, foi para a Suíça pouco antes da crise financeira, que quebrou o país em 2001, para evitar possíveis medidas econômicas de emergência. Kirchner afirmou que o governador que o sucedeu na província, Sergio Acevedo, repatriou o dinheiro.
Ao mesmo tempo da nova denúncia, a candidata Kirchner era acusada de usar estrutura oficial – de seu marido – em campanha.
Pode?