Por Luana Lila
O relatório que pedia a cassação do presidente do Senado, Renan Calheiros, foi rejeitado, no dia 12 de setembro, por 40 dos 81 membros da Casa. Com essa decisão, ele não terá seus direitos políticos cassados e poderá, se assim desejar, se manter no cargo que ocupa.
A maior parte da mídia se manifestou contra a decisão dos senadores e a sociedade pôde perceber que, na democracia brasileira, os governantes não são representantes do povo e, sim, de seus próprios interesses.
A população está indignada mas falta mobilização de sua parte. Sindicatos, partidos, organizações estudantis, nenhum deles se movimentou expressivamente nos dias que se seguiram à absolvição.
Há 15 anos, quando ocorreu o impeachment de Collor, milhares de estudantes saíram às ruas, no movimento conhecido como Caras Pintadas, para protestar contra a corrupção. Agora, os escândalos se repetem e, após uma seqüência assustadora deles, é curioso que, não só os jovens, como nenhum outro segmento social, tenha se manifestado veementemente sobre o assunto.
Será que, hoje em dia, a alienação é tão grande assim? Talvez não. Um dos motivos pelos quais não há grandes mobilizações populares se deve ao fato de o PT, principal conciliador de movimentos sociais e das massas, ser agora o partido no poder.
Além disso, o governo Lula tem oferecido à União Nacional dos Estudantes (UNE) verbas quatro vezes maiores do que a organização recebia no governo FHC. Não que isso seja ruim, afinal esses recursos são utilizados para promoções de debates e eventos culturais, entre outras coisas, mas é difícil pensar que uma organização que nunca lucrou tanto seja capaz de se manifestar contra quem a alimenta.
Independentemente das explicações acima, é fato que há uma apatia generalizada, principalmente dos jovens, que, teoricamente, são os mais propensos a se manifestarem contra a ordem estabelecida. Para entender melhor essa passividade contemporânea, conversei com estudantes e funcionários da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), todos entre 18 e 35 anos, para tentar entender como e por que os escândalos do país são assimilados com tanta naturalidade.
Foram cerca de 20 entrevistados que responderam perguntas sobre o acompanhamento dos acontecimentos em relação ao caso de Renan, como se sentiram quanto aos resultados e o que eles pensam ou gostariam de fazer para se manifestar contra os escândalos que vêm acontecendo na sociedade, sendo o caso do senador o último exemplo deles.
Muitos sentem vontade de se manifestar, mas não sabem como poderiam fazê-lo, ou então, se dizem sem energia para tanto. Afinal, apesar da conjuntura dos fatos ser extremamente prejudicial à situação econômica e social do país, esses jovens têm uma vida privilegiada e gozam de uma espécie de escudo social que impede que os acontecimentos atuais tenham relevância direta sobre eles.
Porém há aqueles que, ao seu modo, estão fazendo algo sobre o assunto. Paola*, 22, aluna do curso de Multimeios, já enviou três cartas ao Senado fazendo críticas à situação, mas não recebeu nenhum retorno.
Enquanto Marcos*, 33, estudante de Geografia, vota nulo em todas as eleições. Ele vê a organização de passeatas como uma manipulação, já que, no final, a ordem continua sempre a mesma e a situação real nunca muda. Talvez, se todos os cidadãos votassem nulo nas eleições, os políticos seriam capazes de perceber a insatisfação da população e a necessidade de mudança.
Já Alan*, 34, faz mestrado em Psicologia Social e pensa em se candidatar a vereador ou deputado, para estar apto a promover mudanças.
Há exemplos de jovens que, apesar de não realizarem suas idéias efetivamente, estão pensando sobre o assunto. Constantino*, 27, formado em Direito e Relações Internacionais, sabe que há muito para se fazer, como, por exemplo, entrar com ações contra o poder público, alegando ofensa à moralidade administrativa, ou promover discussões, escrever artigos e assim por diante.
José Octavio Paes, 19, aluno de Multimeios, crê na arte como forma de mudança, pois, para ele, ela mexe com o sentimento e não com a razão e, desse modo, pode-se fazer política.
Houve críticas em relação às organizações estudantis ou partidos. Por exemplo, Pedro Sang, 19, estudante de Psicologia, se sente incomodado e acomodado ao mesmo tempo. Porém, apesar de achar que deva participar, não gostaria que seu ato fosse tutelado pelos movimentos que organizam as mobilizações. Para ele, deveria haver um modo para que qualquer um pudesse se manifestar, sem ter de se encaixar em formas ou idéias pré-formadas.
Ana Roman, 19, estudante de Psicologia, concorda. No seu ponto de vista, militantes de partidos ou movimentos estudantis muitas vezes não percebem que fazem parte de um jogo maior. Eles assumem posições previamente estabelecidas, afirmando sempre ser contra, mas não buscam caminhos que levem a novas indagações ou posições autênticas.
Ana Noronha, 19, que cursa Artes do Corpo, acredita que as pessoas não estejam se perguntando sobre questões reais. Por exemplo, por que, no Brasil, a democracia permite tantas brechas? Qual é a origem dessa realidade? Para ela, a mídia é, em grande parte, responsável por isso, pois ela fornece fatos e, com eles, passa a impressão, de que se sabe muito sobre o assunto, porém, a própria mídia não faz as perguntas certas, não expõe análises ou saídas.
Independentemente de se manifestarem ou não, ficou claro que os jovens não sabem como se mobilizar, mas isso porque não vêem esperanças de mudanças. Muitos querem extravasar sua indignação, porém, além de não saberem como fazê-lo, crêem que não haverá resultado algum. A situação do país tem sido a mesma por tanto tempo que os jovens sentem como se vivessem um presente perpétuo, sem possibilidades de alterações.
* As pessoas preferiram não ser identificadas.