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Laboratório de mídia online da PUC-SP – Alunos do 1º ano – Turma MC – 2007

Posts de Outubro 4th, 2007

Há 15 anos, eram 111 presos

Publicado por gabrielamoncau em 4/Outubro/2007

Por Gabriela L Moncau

“E quando ouvir
o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos,
mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos,
ou quase brancos quase pretos de tão
pobres
E pobres são como podres
e todos sabem como se tratam
os pretos”
“Haiti”, Caetano Veloso e Gilberto Gil

     Dia 2 de outubro de 2007, terça-feira, completaram 15 anos do massacre do Carandirú. Os policiais que participaram da operação não receberam nenhum tipo de punição e são condecorados até hoje. Quanto aos 111 (muitos dizem que foram muito mais mortos) empilhados do outro lado nesta longa noite dos paulistanos, o Estado tapa o nariz, a justiça os olhos e o cidadão dorme.

     Tudo começou com uma briga de presos no Pavilhão 9 , tentando pendurar roupas no varal. Deveria terminar como mais um dos rotineiros tumultos da Casa de Detenção do complexo do Carandirú, na zona norte de São Paulo. A briga, porém, terminou com um dos mais marcantes massacres de violenta intervenção policial em São Paulo e mesmo no Brasil, ganhando repercussão internacional.

     O pavilhão e toda a Casa de Detenção foram desativados dia 15 de setembro de 2002. Ocupando o espaço da antiga penitenciária, hoje se encontra um parque público, com centros de cultura e lazer, local onde, por exemplo, o rapper Rappin Hood deu show na virada cultural desse ano.

     As lembranças ficaram nas memórias dos paulistanos, sobreviventes e dos familiares dos mortos. Alguns presos chegaram a se misturar com os cadáveres para fingir que estavam mortos e tentar sobreviver.

     O coronel da reserva Ubiratan Guimarães, que comandou a invasão da Polícia Militar na Casa de Detenção, foi condenado, em junho de 2001, a 632 anos de prisão pela morte de 102 dos mortos e cinco tentativas de homicídio. Por ser réu primário, recorreu da sentença em liberdade. Não foi punido. Em setembro de 2006 foi morto em seu apartamento num crime ainda não esclarecido.

02 de Outubro de 1992

     Há 15 anos inicou-se um tumulto no Pavilhão 9 do Carandirú. Era dia de visita e a agitação era grande. Do lado de fora iriam chegar mulheres, amigos e filhos. Os dois presos começaram a se bater e não demorou para que o alvoroço se generalizasse.

     Os agentes penitenciários, separados dos presos por muros e cancelas, ao perceberem o tamanho da pancadaria, assustados, chamaram a polícia. A notícia correu rapidamente por diferentes fios telefônicos até atingir os ouvidos dos maiores líderes da polícia da época.

     Os homens blindados chegaram em pouco tempo. A luz e a água foram cortadas. A súplica de muitos inocentes era ignorada e foi calada com balas de chumbo.

     Durante a rebelião, os presos queimaram colchões, arquivos e montaram barricadas nos corredores para impedir o acesso da polícia. O então secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, teria telefonado para o governador Luiz Antonio Fleury Filho, que estava viajando pelo interior do Estado em campanha política, era véspera de eleição. Fleury deu a ordem para a polícia entrar sem dó.

     O coronel Ubiratan Guimarães assumiu o comando da operação. Em uma tentativa de pôr fim à rebelião, a Polícia Militar, armada e com cães, invadiu a penitenciária.

     Sem negociação, a Rota ocupou o primeiro e o segundo andar do pavilhão. A tropa não era preparada para nenhum tipo de ação como essa e entrou no presídio armada até os dentes.

     Todos os presos que estavam no primeiro andar foram mortos. No segundo andar, morreram 60% dos detentos.

     No final de tudo eram poucos os presos que não haviam sido assassinados covardemente. Fleury não foi preso nem punido. O número total da chacina só foi divulgado oficialmente no dia seguinte, meia hora antes do encerramento das eleições municipais.

“Cada detento uma mãe, uma crença.
Cada crime uma sentença.
Cada sentença um motivo, uma história de lágrima,
sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio,
sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo.
Misture bem essa química.
Pronto: eis um novo detento
Lamentos no corredor, na cela, no pátio.
Ao redor do campo, em todos os cantos.
Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã…
Aqui não tem santo.
(…)
Ratatatá, Fleury e sua gangue
vão nadar numa piscina de sangue.
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de outubro, diário de um detento.”
“Diário de um Detento”, Racionais Mc´s

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