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Laboratório de mídia online da PUC-SP – Alunos do 1º ano – Turma MC – 2007

Posts de Outubro 9th, 2007

Com “Orestéia” Folias comemora dez anos de existência

Publicado por gustavoassano em 9/Outubro/2007

Por Gustavo Assano

     Logo à entrada do teatro, um palhaço alerta: “É tragédia”. Não bastasse a forma abrupta com que o aviso é dado, ainda completa: “Morre gente. Não é uma comédia romântica, nem drama, não é Molliére e não tem palco italiano. Tem cenas de violência e de nudez, mas não ao mesmo tempo”. Em seguida coloca a cereja no topo do bolo: “Ah! Mais uma coisa – São três horas e meia de espetáculo”. Não raro, algumas almas desavisadas não sustentam a vontade de assistir. Torcem o nariz e desistem.

     Têm muito que perder, porém, os que assim cedem tão facilmente. Trata-se de algumas das mais antigas tragédias gregas que sobreviveram à evolução histórica de mais de vinte e quatro séculos. A montagem do grupo Folias d’Arte de “Orestéia – O canto do Bode” reúne a trilogia de Ésquilo, “Agamêmnon”, “Coéforas” e “Eumênides”. Com a dramaturgia adaptada por Reinaldo Maia, com direção de Marco Antônio Rodrigues, e maturada coletivamente por um longo processo de criação, o que é colocado em cena não é uma mera reprodução das falas traduzidas da escritura antiga.

     O texto de Ésquilo é abordado de tal forma que, com surpreendente minúcia, todos os traços que apontam para determinada formação cultural helênica sejam repensados e contrastados com a realidade contemporânea da América Latina. No turbilhão que o tema impõe, os 14 atores em cena analisam cinqüenta anos de evolução política, comparando-as com a trajetória mítica de Orestes, o herdeiro vingador da casa dos Atridas.

     O projeto é de uma ambição assumidamente ampla e trabalhosa. O próprio filósofo Paulo Arantes utilizou a “Orestéia” do grupo Folias como exemplo para sustentar a idéia de que, em tese, é muito provável que os teatros de grupo estejam cumprindo com aprofundamentos analíticos que os acadêmicos não estão dando conta.

     O espetáculo também é um rito de formação para o grupo, pois neste ano comemora 10 anos de idade. Desde 1997 os gerenciadores do espaço na Rua Ana Cintra, número 213, são reconhecidos pela ousadia em suas criações e pela atualidade dos debates que sempre alimentam, promovendo palestras e eventos que envolvem discussões sobre os mais variados assuntos. Expõem com lucidez a necessidade de uma linha de pensamento que ambicione mais do que a bilheteria bem-sucedida e aceitação da crítica para a formação do artista.

     Foi lá que nasceu, por exemplo, o Movimento Arte Contra Barbárie, que criticava firmemente o total descaso dos meios institucionais com o desenvolvimento de novas artes, e cujas reivindicações culminaram na formulação da Lei de Fomento ao Teatro, que é o primeiro mecanismo institucional do gênero, servindo de modelo para movimentos similares em todo o país. Em um começo de século quando a barbárie parece reinar de forma desconforme e camaleônica, são de saltar aos olhos as pequenas conquistas que as novas unidades coletivas conseguem alcançar. Com “Orestéia – O canto do bode”, o grupo Folias demonstra que, mesmo do solo asfaltado da Terra Devastada, pequenas flores podem se erguer.

Segue abaixo a entrevista concedida pelo ator e membro do grupo desde sua formação, Dagoberto Feliz.

Gustavo Assano – Como é a relação do Folias com a Lei de Fomento?

Dagoberto Feliz - A gente é contemplado com a lei de fomento, não sei qual edição, com um projeto que inclui a “Orestéia” e o “Cabaré da Santa”, que é o próximo espetáculo, fora publicações, fora o livro. A gente está fomentado até fevereiro, provavelmente.

GA – Como é a relação do grupo com outros grupos teatrais, com a classe teatral como um todo?

DF - Não sei se é só com o Folias, mas antes da lei de Fomento já existia uma proximidade de vários grupos. Vou citar, mas vou esquecer de muitos, mas há alguns grupos que se identificam ideologicamente com o pensamento artístico, não que esses grupos sejam iguais artisticamente. Existem diferenças entre grupos, mas existem muitas proximidades. Entre esses grupos que se aproximam posso citar (Cia. do) Latão, São Jorge (de Variedades), (Grupo) XIX (De Teatro), (Núcleo) Bartolomeu (de Espetáculos), Parlapatões, Moreira, Fraternal, vários. E têm outros, e que na verdade nem são grupos, que nós não nos identificamos nem artisticamente, esteticamente e politicamente. Então você sempre se aproxima de pessoas com quem você se dá bem, e não com quem não se dê bem. Pessoas com quem você não se dá bem, eu pelo menos, quero distância, e o Folias, de certa forma, está próximo de pessoas que pensam teatro, arte especificamente, como parte de uma vida atual, e não como algo idealizado ou utópico.

GA – Gostaria que você discorresse um pouco sobre como anda, ou desanda, o Movimento de Arte Contra a Barbárie.

DF - Eu estou meio afastado, o movimento está meio esvaziado, eu acho. Talvez porque, como as Eumênides, tenham se adaptado, e aí perde a força da fúria, eu acho, é a minha opinião. Embora eu não tenha participado muito diretamente. Como tenho áreas de atuação, essa não é uma das minhas, essa era mais fácil conversar com o Marco Antônio (Rodrigues, diretor), com o (Reinaldo) Maia (dramaturgo), ou com a Patrícia (Barros, atriz). É mais a área deles, que são mais inteirados para a prática da política cultural. Não que eu não saiba, mas eu observo através de informação deles, e muito menos de participação. Mas essa é a minha opinião. Eu acho que por isso vira calminho, e é o que pode vir acontecer com várias outras coisas, inclusive com a lei de fomento.

GA – Qual a importância dos debates que vocês promovem? Há algum critério ao chamar os palestrantes?

DF - A gente tenta ter algum critério. Eu acho que o Folias também, vendo historicamente, ele tem um papel de formação, não de formação acadêmica, mas de fomentar discussões. Pelo Folias já passou, e eu posso afirmar de boca cheia e sem falsa modéstia, muita, mas muita gente e que hoje criou outros grupos. Eu acho que essa é uma das funções primordiais do Folias, se não a maior – A gente ainda não tem o afastamento histórico para determinar o certo disso, mas é sem dúvida uma delas. Nós, por acaso, criamos outras pessoas que vão fazer coisas em outros lugares. É um fato isso. Também não estou batendo no peito dizendo “ó, nós somos formadores!”, mas isso acontece, é um fato, não há como negar. E, é claro, a partir de quando você cria um novo grupo, um novo espaço, um novo pensamento, você o modifica também, você bota suas individualidades, e acho que isso é o que o Folias melhor faz, além do espetáculo, é claro. Então acho que o Movimento de Arte Contra Barbárie esvaziou por acomodação, por displicência das fúrias em vigiar os homens. A “Orestéia” fala muito bem disso que a gente está passando.

GA - Como surgiu o projeto de montar a Orestéia?

DF - É um projeto antigo do Marco Antônio, ele já pensava nisso há muito tempo. Não sei precisar quanto, mas bastante tempo. Na prática a Orestéia nasceu há uns três ou quatro anos atrás, por uma angústia do Marco, que se juntou ao Maia nessa angústia, e que transmitiu essa angústia para outras pessoas. Então, começou mais ou menos uns quatro anos atrás, a preparação real, fora o que se pensava anteriormente.

GA – A peça aborda questões bastante pontuais, é muito precisa sobre onde ela quer chegar. Ela pega um assunto abstrato e politiza a questão, além de abordar temas bastante complexos, como a idéia de pós-modernidade ou de adequação a idéia de sujeito trágico. Percebe-se que essas questões foram maturadas. Como foi o trabalho coletivo com essas questões?

DF - Talvez a Orestéia tenha sido um marco na minha vida. Quando começamos a preparação conversamos com uma professora da EAD (Escola de Artes Dramáticas), e nesse estudo com ela, vimos que para os gregos, o conceito de propriedade não era o mesmo que o nosso. Você só podia ser dono de algo que fosse junto com todos, e não somente de uma pessoa. Esse conceito de propriedade começa exatamente com a discussão que a Orestéia também propõe. Isso estou falando bem grosseiramente. E isso dá um tilt na cabeça da gente. Faz a gente pensar “Mas peraí, como é que é isso?” E te faz rever os teus conceitos. E isso vai para a cena. Claro que, por formação de cada um, cada um tem um momento histórico que é próprio de mudanças, ou não. Mas foi uma tentativa real do elenco de buscar essa proposta da Orestéia. Isso foi e continua sendo. Que bate diferente em cada um do elenco, da parte técnica. O que eu acho legal é que, desde o começo, todos que são da ficha técnica estavam envolvidos. O que significa figurinos, cenário, etc. Não que tenham tido os mesmos tempos, mas estavam todos juntos desde o começo. Isso é algo que tentávamos e nunca tínhamos conseguido. O elenco é quase o mesmo desde o começo, a parte técnica é quase a mesma desde o começo. Por isso que agente queria a Lei de Fomento, porque a gente queria tentar fazer esse processo total, com todos, e manter as pessoas durante um longo tempo, o que é difícil, por várias razões, pela vida, mas foi uma tentativa disso. Dentro da Orestéia, acho que esse é o conceito mais forte, que é o que mais balança a cabeça de todos, e vai pra cena. Além da historia, além da comparação com o teatro de hoje, além da comparação com a América Latina, tudo isso, sem tirar nada. Mas esse conceito, que não é só meu, é nosso, ou não é de ninguém, talvez tenha sido até o motivo de o Marco ter insistido tanto em montar. E o fato dessa comparação com uma história tão antiga provocar essa polêmica até hoje. E não é só entre a gente, é entre todos os intelectuais, não pela nossa montagem, mas pelo próprio texto em si. Então é um texto bom. Rico. Não é um texto chapado onde as pessoas ficam falando que é isso ou aquilo. A nossa opinião sobre essa história está no espetáculo. Claro que temos opiniões a mais, outras comparações, e que não puderam entrar no espetáculo, não couberam. As perguntas que nos fazíamos e que o espetáculo faz é “quem são os nossos deuses atualmente? Existem? São identificáveis ou não?”. Na Grécia antiga estavam todos identificáveis. Hoje não identificamos nossos deuses, ma eles existem.

GA – Houve um consenso entre vocês na criação?

DF - Não sei se é um consenso, mas essa é uma discussão bastante real e atual. Até hoje ficamos discutindo sobre isso.

GA – Há um reflexo dessa linha de pensamento com formulações acadêmicas, e lá também se vê rupturas e divergências sobre estas questões. Também aconteceu isso com vocês durante o processo de montagem?

DF - Claro! Por visões diferentes. Não direi qual foi, mas tem uma cena específica que se resolveu uma semana antes da estréia. Teve no mínimo umas 300 versões, por discussão, por entendimento, por caminhos. Isso até chegar a uma conclusão, a uma escolha. E aí a escolha é da direção. Porque cabe a alguém fazer isso, mas não que antes não se possa discutir, propor cenicamente alguma outra coisa. E eu te digo, uma única cena demorou todo o processo de montagem.

GA – Vocês anteviam todo esse tempo para a montagem?

DF - Não existia essa preocupação. Acho que vão acontecendo coisas, os astros vão se compondo e conspirando, sem parecer esotérico, que eu não sou absolutamente nada, mas isso conspira. E tanto conspira que, voltando àquilo que você perguntou sobre grupos próximos a nós, todos estão fazendo a mesma coisa. E ninguém combinou. Bartolomeu fez uma coisa, o Narradores está montando a orestéia – do Narradores não tinha falado – o Feijão está fazendo quarenta anos de desconstrução de cena teatral brasileira, e tem mais gente que não vou lembrar agora. Então, existe essa discussão que está presente. Sobre a função teatral, a nossa história, pra que a gente serve, se a gente não serve pra nada. A discussão está aí. E ninguém combinou. Também não foi uma jogada de marketing. Ou pelo menos a gente não pensou nisso – Devia ter pensado, somos meio lerdos nisso (risos), mas aconteceu desse jeito. Talvez a gente passe a pensar numa agenda mais programada. Eu acho que é necessário. Mas também é perigoso virar aquela coisa “A gente tem que fazer isso!”…

GA – Você diria que existe uma responsabilidade do fazer artístico por trás dessas relações?

DF - Sim, claro.

GA – Como seria isso?

DF - Eu acho que é uma visão, não é a única, porque eu posso falar não só por mim, mas também pelo Folias, mas se você está fazendo teatro, hoje, neste país, nesta situação política – sim, social– sim, econômica, etc. Hoje, se você não levar em consideração o que está acontecendo hoje, você, na nossa opinião, não está fazendo teatro, está fazendo outra coisa. E existe essa possibilidade de fazer outra coisa que não é teatro. Essas outras coisas não me interessam. Aliás, elas me prejudicam. Aliás, se elas pudessem deixar de existir, eu ficaria muito feliz. Como não tenho esse poder, eu convivo com elas. E aí vai meu lado eumênide. Meu lado fúria iria lá e jogaria uma bomba no teatro que eles fazem. Como eu sou eumênide, tudo bem, eu convivo. Mas se você resolveu fazer teatro, vai e faz. Se você resolveu ser padeiro, você vai e faz um pão. Pode até enganar as pessoas durante um tempo, colocando alguma coisa no lugar, pra lucrar mais, mas aí você não está sendo padeiro, você está sendo ladrão, que também é uma especialidade. Mas se você resolveu ser padeiro, o seu pão tem que ser o melhor. Não falo em venda ou produto, mas em ofício. Tem que ser um ótimo padeiro. É uma questão de ofício, e nisso você tem que ser ético, saber o que pode e não pode fazer. Não como moralista, mas como obrigação do seu ofício. E isso não tem a ver com dinheiro, não tem a ver com venda, não é nada disso, essa discussão não me interessa. E não é que eu não goste de dinheiro. Adoro viajar, adoro comprar livro, adoro ir a bons restaurantes, mas se o meu ofício estiver a serviço disso, aí eu estaria invertido. E se estou invertido, eu não estou fazendo meu ofício. E cumprir com isso me dá uma paz tão grande! Poderia morrer pobre e estaria muito bem. Mas não tenho o que reclamar da vida. Estou até que bem, financeiramente falando. Mas não quero ser milionário. Se não, eu estaria realmente na profissão errada. Ou melhor, não na profissão, mas nos meios errados. Eu teria de fazer de outra forma. Mas aí eu teria de me adaptar a essas formas e eu teria de ser mais eumênide ainda.

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