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Laboratório de mídia online da PUC-SP – Alunos do 1º ano – Turma MC – 2007

Posts de Outubro 25th, 2007

Professor cubano dá palestra na PUC sobre o marxismo

Publicado por gabrielamoncau em 25/Outubro/2007

Por Gabriela L Moncau

     A segunda palestra do Ciclo da América Latina coordenada pelo professor José Arbex Jr (Núcleo de Estudos de Jornalismo Perseu Abramo) e Maria de Sousa (Escola Nacional Florestan Fernandes) ocorreu dia 9 de outubro, numa terça-feira. Seu início não foi muito diferente do primeiro encontro, realizado dia 20 de setembro, deu-se ás 19:30, na Apropuc.

     O palestrante dessa vez era o cubano Fernando Martinez. É professor doutor em direito pela Universidade de Havana e pesquisador do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Cultura Cubana Juan Marinello. Foi pesquisador e coordenador de áreas no Centro de Estudos sobre Europa Ocidental (1976-1979) e no Centro de Estudos sobre América (1984-1996), em Havana. Hoje em dia é, também, membro da União de Escritores e Artistas de Cuba e da União Nacional de Historiadores.Bem humorado, usando uma camisa listrada, riu ao se atrapalhar em ajustar a cadeira e o microfone. O professor Arbex, sabendo que não tenho facilidade com o espanhol, pediu para que o convidado discursasse devagar, “Abla mui dispassio”, apontando para mim (já bem vermelha), explicando minha precária compreensão. Martinez sorriu e disse que se esforçaria, “para mim isso não é nenhuma tortura”.

     As câmeras finalmente ficaram prontas e a palestra começou. O tema foi o Marxismo atualmente na América Latina. Fernando Martinez explicou que a oposição ao capitalismo foi se quebrando e que hoje a integração latino-americana se dá de modo diferente, pois o capitalismo desgastou sua ideologia de progresso e democracia, atualmente não admite um plano para o futuro. Segundo ele, a hegemonia burguesa está bastante desnacionalizada e os movimentos populares reivindicativos são a esperança.

     Com uma feição um pouco mais séria e bastante gesticulação, colocou que Cuba, Venezuela e Bolívia são as principais marcas de solidariedade com os injustiçados e representam atualmente a resistência na América Latina. Para ele, o marxismo, que sofreu muito abandono por causa da repressão e do conservadorismo neoliberal, é o melhor instrumento para se pensar em socialismo. Depois do fim do chamado socialismo real, o marxismo tornou-se a principal fonte para voltar a pensar em uma elaboração de um sistema de esquerda. Além disso, considera o marxismo atual necessário para a conscientização das sociedades, independente do sistema.

     Difícil, porém, interpretar e definir o marxismo do século XXl, existem muitas posturas diante das teorias. Martinez, angustiado, disse que em Cuba o conhecimento é muito restrito. De tempos para cá o entendimento das teorias marxistas vem empobrecendo e as discussões são raras, algo extremamente preocupante para uma nação que se diz anticapitalista.

     “Hoje o processo de hegemonia cultural imperialista é mais perigoso que uma hegemonia militar” provocou o palestrante. Explicou essa frase argumentando que o totalitarismo sobre a informação pública implica em várias coisas, entre elas, o parasitismo capitalista. Hoje em dia ainda se fala da morte da princesa Diana e enquanto isso, em Moçambique, por exemplo, milhares de pessoas morrem de fome. Como pod um país ser um importante exportador de alimentos e ter metade de sua população desnutrida? O problema é que com exceção de Cuba, por mais que se lute contra o sistema, na vida cotidiana só se pode viver como o capitalismo manda. Será possível alcançar a democracia?

     Foi pedido que Fernando fizesse uma avaliação de Fidel Castro. Colocou-se, então, que o presidente cubano saiu do cargo por enfermidade e lugar para manter a situação. Chega a ser uma situação interessante, todos vão ao trabalho, músicos continuam tocando música, pintores continuam pintando, como se não houvesse uma ausência no governo, pois o líder da revolução está vivo mas já praticamente não tem condições de exercer suas funções. A ditadura já tem meio século, e apesar de Raul Castro estar se prepararando para assumir o cargo do irmão com a intenção de manter a mesma estrutura, os dois são diferentes e uma variação na política é inteligente. Citou uma fala de Raul Castro: “Fidel falava por horas porque tinha muito a dizer. Eu não tenho muito, por isso falou pouco”. Há, assim, do ponto de vista político uma curiosa continuidade e descontinuidade, não são a mesma pessoa. Como será a transição?

     Há grande dificuldade entre a sociedade cubana e o socialismo implantado. Muitos marxistas dizem que a idéia de nação é capitalista e o marxismo de nada serve para a América Latina, a situação não está fácil. Realmente idéias nacionais são direcionadas pela burguesia. “Eu sou marxista e socialista mas tenho que ter duas almas pois sou também (contradiotoriamente) nacionalista e patriota para impulsionar o desenvolvimento da minha nação, que representa uma soberania nacional batendo de frente com um poder tão grande como os EUA” disse Martinez.

     Nesse momento o microfone caiu duas vezes do apoio. O convidado passou a segurar o microfone com a mão. Um braço levantou-se no ar, trazendo uma pergunta sobre o cultivo do pensamento de Che em Cuba. Fernando Martinez continuou sua fala, dizendo que além de argentino, Che Guevara foi cubano também. Há um sentimento de elo nacional com Che, ele acaba por representar uma força moral, econômica e política. Crianças na escola falam antes de entrar na classe: “Defenderemos o comunismo. Seremos como Che”. É necessário consolidar a idéia do comunismo e do socialismo. Tem que se conseguir produzir revoluções culturais progressivas. Che Guevara tornou-se um elemento cultural, intelectual e teórico, não é visto apenas como um revolucionário de ação. Na cultura do capitalismo, as coisas são eliminadas ou engolidas, Che torn-se um exemplo de resistência e grande força. Os cubanos possuem conhecimento profundo sobr Che.

     Quando o assunto Brasil e Lula foi levantado, ele logo respondeu “Não sou diplomático, mas não gosto de falar sobre o próprio país que estou visitando, pois todos vocês devem saber muito mais do que eu. Sou ignorante em relação ao Lula. Porém, como marxista, acredito na centralidade de líder para a luta de classes”.

     Perguntaram, então, sobre a forte ascenção dos movimentos populares de forte base indígena e campesina. Martinez explicou que esses movimentos, que ganham força principalmente na Bolívia com Evo Morales, são importantíssimos diante do capitalismo atual e considera interessantes os aspectos democráticos dos movimentos indígenas. Apontou, porém, que os movimentos de classe operária vem se enfraquecendo e que discussões e articulações de movimentos distintos são imprescindíveis.

     A última questão que foi levantada foi a antiga relação Cuba – União Soviética. Iniciou sua fala explicitando a enorme importância da URSS como símbolo de insatisfação com o capitalismo e luta de esquerda, apesar de seu fracasso. Deixou claro que a troca que ocorria de petróleo por açúcar e armamentos não estruturava nenhum tipo de relação imperialista, mas sim de sobrevivência e estratégia. Eram aliados, porém sempre houve muito embargo. Durante 30 anos, por exemplo, a URSS se negou a vender uma siderúrgica à Cuba. Há pouquíssimo conhecimento sobre Cuba, algo lastimável, pois a história política e econômica de um país que se liberou do neoliberalismo deveria ser motivo de forte estudo. Sobre a economia cubana, está e tem estado há muito tempo em crise completa, já apelou à muitas medidas. Atualmente, o turismo tem sido a maior fonte de entrada de capital. A imersão estrangeira na economia do país não é muito forte pois em Cuba não se encontra nada para seduzir a forte ganância capitalista.

     Finalizando a palestra, Fernando Martinez retomou o assunto do marxismo e socialismo do século XXl. “O que me encanta no socialismo do século XXl é que não se define-o, mas de qualquer modo me preparo para ele.”

     A próxima palestra do ciclo ocorrerá numa quarta-feira, dia 31 de outubro, no terceiro andar do prédio novo da PUC, auditório 333. O belga François Houtart falará sobre o imperialismo hoje e a resistência dos movimentos sociais.

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