Por Marina Pereira
No penúltimo dia do ciclo de palestras da Semana Acadêmica na Pontifícia Univerdade de São Paulo, 26 de Outubro, participei de um debate sobre a sexualidade de deficientes físicos, mentais e sensoriais, basicamente formado por alunas do 5º ano de psicologia e uma professora e atuante da área.
Assim como as palestrantes, boa parte da sala onde foi realizado o debate, ás 10 da manhã na sala T41 localizada no Prédio Velho, era formada por alunos de todos os anos de psicologia – o que pude perceber como este assunto é de grande interesse para esta área.
A palestra inicia-se com uma breve explicação sobre Sexualidade e namoro, dada pela Professora Ana Laura Schlieman, do núcleo acadêmico de Psicologia, mostrando como este tema é de grande relevância pela existência de muitos preconceitos relacionados ao assunto e estigmas gerados por grande falta de informação nesta área. Ana Laura continua explicando que a sexualidade é uma das características mais naturais do ser humano, e luta pela aceitação e melhor informação por parte de amigos, família, pais e principalmente a da própria pessoa.
Como parte de suas experiências Ana Laura participou de projetos na Favela do Buraco Quente com pais e adolescentes. Através de entrevistas com pais e filhos e pesquisas pela região, ela pôde perceber que existia uma grande deficiência de informação relacionada a assuntos sobre sexualidade, por parte dos pais e que este assunto raramente era tratado com os filhos. Como exemplos citados por Ana Laura, houve depoimentos de pais, os quais tomavam ambos a pílula antes de uma relação sexual, ou de uma mulher que fazia tudo com o marido, mas não beijava na boca, pois esta atitude sim, engravidava, entre outros. Ana Laura, portanto começa a ter uma experiência maior com deficientes físicos que moravam na favela, justamente para entrar no assunto da sexualidade que, para este grupo específico, era um assunto bem mais delicado a ser discutido, principalmente com os pais.
Inicia a sua apresentação informando que, pelo Conceito da Organização Mundial da Saúde de 1975, a sexualidade é entendida por:
. Ser parte integral da personalidade de cada um;
. Ser parte do desenvolvimento da identidade humana, que é constituído pela atividade cultural e social compatíveis com o gênero sexual, os papéis sexuais e a vivência sexual.
E mostra, portanto, que apesar de ser tão natural, é vista com muito preconceito pelos pais, pois muitos, segundo Ana Laura acham que é papel da escola informar seus filhos sobre a sexualidade. Esta deveria vir em primeiro lugar da educação familiar e não de comentários de amigos, colegas de sala, etc. diz a psicóloga.
As cinco meninas do 5º ano de psicologia mostraram seus TCC (Trabalhos de Conclusão de Curso), relacionados a este tema. Partiram para as duas análises de Deficiência pela OMS (Organização Mundial da Saúde), explicando que no ano de 1976 a explicação de deficiência ressaltava o lado do problema físico, sendo que somente em 2001 a OMS mudou sua visão de deficiência, mostrando ser um problema enfrentado pelo indivíduo com a sociedade em que se vive.
O trabalho das cinco meninas baseou-se na pesquisa de filmes que relacionavam as deficiências mental, sensorial e motora com a sexualidade vivida por seus personagens. Cada uma ficou responsável por volta de dez filmes, dentre eles, dois de cada deficiência foram mais aprofundados, como: O oitavo dia e Simples como amar que ressaltaram a deficiência mental; Nascidos no silêncio e Á primeira vista que ressaltaram a deficiência sensorial e Gaby e Nascido em 4 de julho que ressaltaram a deficiência física.
Todas mostraram que pela sua análise e pelas experiências vividas nas Instituições especializadas existe um forte retrato de preconceito, como a família foge de tal assunto ou como são extremamente conservadores, considerando o ato sexual apenas paraprocriação.
A última apresentação foi um outro trabalho de TCC de Bianca Ramos Pereira do 5º ano de psicologia com o tema “Um amor marcado pelo não”, do qual registra a sua experiência com famílias e instituições de pessoas com deficiência intelectual (Síndrome de Down). De sua análise pôde perceber a deficiência vinda, não somente dos pais, como também das instituições que não possuem uma estrutura suficiente para informar seus pacientes sobre tais assuntos.
Assim como outras pessoas que tentam tocar neste assunto com as instituições, Bianca também foi rejeitada ao tentar entrar em contato com os adolescentes, mostrando que nem os pais, nem as instituições tinham interesse em ampliar suas mentes e talvez esclarecer dúvidas que muitos adolescentes podem ter.
Como parte de sua experiência, Bianca registra algumas frases ditas pelos pacientes e pelos poucos pais que aceitam esta situação, como: “Liberdade de expressão, Liberdade para me tocar, E me ver crescer como mulher!” de Ana Beatriz Paiva – Síndrome de Down; “A inclusão tem que ser total…inclusive sexual!” de Maria Silvia Bertilli – Mãe de um deficiente intelectual.
Como última parte da palestra, foi aberto um debate e questões que alguém poderia manifestar. Dentre algumas perguntas e depoimentos, surge uma questão minha que foi feita para Bianca Ramos. Perguntei se ela havia enfrentado muitas barreiras por parte das Instituições e dos pais para chegar até os adolescentes, no qual ela respondeu: “A dificuldade de aceitação da própria instituição em discutir sobre a sexualidade era tão grande, e tive tantas rejeições, que acabei partindo para o boca-a-boca e tentar descobrir pessoas que sofriam de tal problema dentro de casa. Muitas vezes pensei em desistir, pois existe um obstáculo muito grande antes do próprio problema enfrentado pelo adolescente: os pais.”
Pude perceber que a palestra mostrou um grave problema que vem ocorrendo nas casas e instituições de tais pessoas e que só a naturalidade da informação, assim como a sua convivência é que conscientizará a cabeça de muitos pais preocupados, antes de tudo, com a vida em sociedade de seus filhos.