Retinas

Laboratório de mídia online da PUC-SP – Alunos do 1º ano – Turma MC – 2007

Arquivo da categoria ‘Cidades’

Ópio do povo?

Publicado por gabrielamoncau em 11/Novembro/2007

Por Gabriela L Moncau

     Praça da Sé. Um homem alto, de terno cinza e gravata, falando alto e chamando atenção, dentro de um quadrado de giz pintado no chão. Bíblia na mão.

     “Isso não é heresia não, eu sou o bispo da palavra de deus! Quando você tem coração aplicado e sincero à Jesus, ele responde à sua oração! As portas só vão abrir na sua vida quando você tiver crença e fé em Cristo! Aleluia!”

     Em torno do quadrado de giz umas 25 pessoas assistem concentradamente o homem. Um mendigo deitado ao lado, bêbado, às vezes acorda, às vezes volta a dormir. Está sujo e descalço e o sol do meio-dia a pino começa a esquentar o ambiente embaixo de um céu azul e limpo. Um dos homens que está ouvindo o evangélico falar, usando um boné verde, se aproxima do mendigo e deixa ao lado dele um pé de sapato. Em seguida, volta para a roda e continua atento a ouvir o que lhe é falado, muitas vezes completando com “aleluias” e “deus seja louvado”.

     “Jesus é misericordioso, ele deu o caminho!” continua a gritar o evangélico “Jesus é a porta verdadeira! Há muitas portas, o das drogas, o da prostituição, mas a porta verdadeira é da igreja evangélica! Sem Jesus Cristo o homem não é nada, ele é a única salvação!”
Ao mesmo tempo em que essas palavras são pregadas, um menino passa em volta da roda, distribuindo um panfleto da Bola de Neve Church, no qual estava escrito: Você quer felicidade, paz, saúde e família unida? Jesus é a salvação.
 
     O homem de boné verde que havia dado um sapato para o morador de rua começa a se afastar da roda e sai andando pela Praça da Sé, se distanciando da Catedral. Fui conversar com ele. Chama-se Maurício Ribeiro de Salles e mora em Santo Amaro. Perguntei sobre a religião evangélica, sobre suas crenças e fé. “Olha menina, eu não acredito em nada que esses caras falam não. Se eu te dissesse outra coisa eu seria um mentiroso. Sou cabá da peste, baiano de salvador. Não sou dessa religião, não acredito na igreja evangélica, mas também não sei no que eu acredito não. Você, menina, você trabalha e ganha, eu não ganho nada. Tenho só um carrinho de pobre, de pobre mesmo, não tenho nada a perder. Eu tô assim porque eu quero, mas eu não tenho nada a perder então eu paro e escuto. Por quê eu não vou escutar uma pessoa falando em deus? Mas não sei nada, se eu te dissesse outra coisa eu seria um mentiroso.” Virou-se, andou um pouco e entrou em um bar.

     O pregador, depois de algum tempo, encerrou sua fala e pediu contribuição à sua platéia e pessoas passando na rua. Entre algumas moedas e notas, percebi uma nota de vinte reais ser recolhida. Agradeceu a todos e enquanto pegava uma maleta e arrumava suas coisas, se dispôs a responder algumas perguntas à nós, estudantes da PUC.
Perguntaram se ele não se sentia constrangido de aceitar dinheiro de pessoas de fé, porém que muitas vezes estavam contribuindo com o dinheiro que compraria a única refeição do dia. Ele disse que não, pois ninguém era obrigado a colaborar, as pessoas só obedeciam ao coração e que ele estava orgulhoso e satisfeito por trazer as palavras de Jesus para quem quisesse ouvir. Em relação à vestimenta, explicou que o terno e a gravata serviam para ganhar credibilidade, apesar de que muitas vezes, seu público já era conhecido e frequente.

     Muito difícil fazer a distinção do pregador ser uma pessoa de tal fanatismo religioso a ponto de tornar-se imune ao olhar crítico de todos em volta ou se é mesmo uma espécie de picaretagem e o homem utiliza disso para sustentar sua sobrevevicência. É necessário também levar em conta que os pregadores arcaicos e tradicionais não pediam contirbuição financeira ao final da fala.

     Um dos pressupostos da teoria marxista é de que “a religião é o ópio do povo”, por alienar e mascarar a realidade. Marx acusa a religião de manipulação, de sempre ter sido aliada ao poder das elites dominantes e de ser um mecanismo de controle e coesão.
Enquanto isso, para Max Weber todas as sociedades estão em processo de desencantamento da religião e de misticismos, para dar lugar à valorização da razão lógica e da reflexão em cima da realidade concreta.

     Weber errou, e o que acabou por se dar foi o desencantamento com o próprio mundo. São poucos os que suportam viver no sistema capitalista pós-moderno apenas na racionalidade. Quando não se tem onde morar ou o que comer, o desespero necessita de uma esperança confortante, um apoio, uma fé e então se baseiam na religião como algo que os sustente em pé.

     Durkheim, grande estudioso da sociologia moderna, ressalta o importante papel da religião no papel de coesão social dos indivíduos. Difícil aguentar o modo como se vive sem se identificar e ter algo em comum com outras pessoas, viver em comunidade, e juntar-se a grupos. É um dos importantes pontos da religião na sociedade pós-moderna, e um dos argumentos para a tese de que é impossível que a religião um dia seja extinta, por ser uma necessidade humana.

     Revoltante, porém, o abuso que grandes nomes, organizações e igrejas fazem da fé da população. Entre muitos, destaca-se Edir Macedo com a Neopentecostal Igreja Universal do Reino de Deus. Como lutar contra a manipulação e o abuso de uma cega fé que por mais alienada que seja, acaba se tornando a única esperança de muitos para suportar o desigual e revoltante mundo que vivemos?…

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A difícil compreensão do Universo

Publicado por dmekari em 24/Outubro/2007

Por Danilo Mekari 

     Não é a toa que cada pequena descoberta sobre o universo onde vivemos gera grandes repercussões. Não há nada mais intrigante para nós do que o brilho da estrela, o gigantismo da galáxia, o inexplicável buraco negro. Afinal, são poucas as perguntas que o homem — tecnologicamente mais avançado do que nunca — não sabe responder. Nestas questões, o tema principal não está entre nós, e sim muito longe, na imensa escuridão universal.

     Para tentar esclarecer algumas dúvidas — ou aumentá-las, como ocorreu —, fui ao Planetário Aristóteles Orsini, localizado no Parque do Ibirapuera, na zona sul paulistana. Era sábado à noite, e a última sessão começaria dali a 10 minutos, marcada para as sete horas em ponto.

     O clima no parque, normalmente movimentado, era solitário, e os ambulantes que vendiam salgados e doces se preparavam para voltar ao lar. Alguns corriam e outros pedalavam ao som de grasnidos dos patos à beira do lago. A noite já dominava o céu. “Olha a pipoca quentinha, saindo agora”. O pipoqueiro parou o carrinho em cima da Rosa dos Ventos no chão, bem na frente do planetário.

     Depois de sete anos fechado para reformas, no dia 22 de setembro último completou-se um ano de sua reabertura. E, segundo uma das vendedoras na bilheteria afirmou, a reforma foi um sucesso: “É preciso entender que o planetário em 1999 era considerado uma obra antiga, impopular e quase não atraia mais o público. Hoje, é difícil sobrar cadeiras livres aqui”. Ainda fora, seis jovens dividiam três telescópios para tentar observar melhor algum astro. Havia em torno de dez pessoas na fila para comprar ingresso para a sessão, e dois seguranças conferiam-nos na hora da entrada.

     Em sete anos, o planetário se modernizou e está impecável. Um elevador panorâmico — que sobe apenas um andar — chamou a atenção de todas as crianças, enquanto adultos admiravam a pequena bancada que expunha meteoritos de variados tamanhos. Ao entrar na sala, todos os olhos se dirigiam ao enorme equipamento de projeção localizado no centro da sala. Totalmente negro, o projetor em forma de globo é o personagem principal da atração. Os assentos — incrivelmente reclináveis — estavam tomados, e a tranqüilidade externa se opunha à bagunça interna, com risadas infantis e casais que trocavam beijos e confissões. A música de fundo parecia ter sido copiada daqueles filmes sobre o espaço sideral. As crianças já não agüentavam mais esperar, queriam logo ver as estrelas naquilo que parecia uma imensa parede branca de formato oval. Em seguida, o narrador chamado André agradeceu a presença de todos e explicou que, em caso de saída durante a sessão, não seria permitido voltar, pois segundo ele “o olho humano demora para se adaptar ao escuro, e qualquer entrada de luz externa vai atrapalhar”. E o aviso logo surtiu efeito: a mãe de uma criança que começara a chorar se retirou do local para não mais voltar. “Desejo uma boa sessão a todos vocês”, finalizou André.

     Quando as primeiras estrelas começaram a piscar, o público não esperava que aqueles astros — eram milhares — faziam parte do céu daquela noite em São Paulo, imperceptíveis por causa de nuvens e poluição. Foram contadas histórias da mitologia grega sobre os símbolos que as estrelas formam no céu, e questões como “de onde vem a luz? Por que de noite o céu é escuro? Há vida em outros lugares?” tomaram a maioria das explicações.

     A sessão — nomeada “O Lado Escuro do Universo” — usou nomes como Galileu Galilei, Isaac Newton e Albert Einsten para tentar explicar de maneira clara o mistérioso além-Terra. Não conseguiu, porém, transformar essa complexa discussão em algo simples. Passados os primeiros 20 minutos, as crianças aparentavam desgosto e já conversavam entre si. Até mesmo adultos não conseguiram acompanhar o ritmo intenso do que foi explicado. Indubitavelmente, explicar o universo em que vivemos de uma maneira simplista é uma tarefa árdua. Na saída, uma mulher falava no celular e reclamou: “São muitas informações sobre o universo em apenas uma hora. Tenho que vir de novo”.

     O parque, quase deserto, era iluminado pelos postes de luz, enquanto a fonte fazia seu show com luzes coloridas e música clássica para os transeuntes da avenida. No céu, não havia sequer uma estrela, bem diferente do que mostrou o planetário Aristóteles Orsini.

Planetário Aristóteles Orsini Local: Parque do Ibirapuera – SP
Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Portão 10 (entrada pedestres) ou portão 3 (entrada para estacionamento)
Valor único do ingresso: R$ 5,00
Sessões regulares (Sábados e domingos):
15h – “O lado escuro do universo”
17h – “Olhar o céu de São Paulo outra vez”
19h – “O lado escuro do universo”

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Graffiti e o Status de Arte

Publicado por caboehm em 20/Outubro/2007

Por Camila Boehm

     O grafite é uma das artes de rua que se espalha pelos muros, túneis e viadutos da cidade. Pode carregar um significado social, político ou simplesmente ser um vazio artístico. Esse símbolo de rebeldia e clandestinidade surgiu na pichação e foi herdado pelo grafite, tornou-se arte.

      No final da década de 1960 e início dos anos 70, jovens do condado de Bronx, em Nova York, fizeram ressurgir essa forma de arte. Há duas teorias complementares que explicam a origem dos grafiteiros modernos. Uma afirma que o grafite surgiu no Hip Hop. A outra defende que tenha surgido em NY. O que une essas duas visões é o fato de esses grafiteiros serem integrantes das gangues dos guetos de NY, onde o Hip Hop sempre esteve presente.

      Desde o começo, a temática era revolucionária, chamando a atenção para os problemas do governo e questões sociais. Os desenhos estavam, em sua maior parte, nos trens, isso, porque a intenção era passar a mensagem para o maior número de pessoas. Os muros eram alvos constantes também.

      Cada grafiteiro tem um estilo, sua marca, e é possível reconhecer tal artista em qualquer de seus trabalhos. Entre eles o reconhecimento é através do grupo a que pertencem, são as crews. Cada crew tem uma identidade própria, artistas com características comuns nos desenhos. Os integrantes, às vezes, conhecem a arte e o estilo dos companheiros do grupo, tem contato, mas não se conhecem pessoalmente, porque estão espalhados pelo México, Chile, EUA, Brasil, etc.

      Mesmo arte, o grafite não é reconhecido, é tratado como marginal. É preciso escolher um lugar onde ninguém vá utilizar, mas que seja visto por muita gente. Não é fácil alguém dar autorização para se grafitar o próprio muro, mas acontece, principalmente, porque os pichadores respeitam os desenhos e não passam por cima, não rabiscam. Um ato de consideração por parte deles. “E foi a partir disso que as pessoas começaram a pedir para grafitar os muros de suas casas”, diz Aline da crew HNF (Hope Never Fails).

      Aline Moraes Creoruska, que trabalha na casa de câmbio do Aeroporto Internacional de Guarulhos, começou a grafitar através do convite de um amigo e por gostar de arte. Ele estuda na ETE (Escola Técnica Estadual) do Brás, onde a maioria dos grafiteiros de São Paulo se conhece e se forma, ela conta. Nunca pichou e acha horrível, o que contraria a lenda de que todo grafiteiro já foi um dia pichador.

      As origens desses artistas urbanos são bem diferentes. Alguns vêm do Hip Hop, outros dos quadrinhos, ilustrações ou artes plásticas e, sim, há os que passam da pichação para o grafite, mas são poucos.

      Cláudio Donato veio das artes plásticas e vive do grafite e da ilustração. Ele afirma que esse mercado está crescendo muito, sobretudo no exterior. Titi Freak, por exemplo, famoso grafiteiro e reconhecido por seus desenhos característicos na região da Liberdade, está na Inglaterra organizando uma exposição de seus trabalhos.

      Outro exemplo da popularização dessa street art é o trabalho de Donato na capa do CD de Marjorie Estiano. A partir de uma foto dela, usou-se a técnica do stencil (uma forma de grafitar usando papel vazado e, então, aplica-se a tinta por cima desse molde) em muros da Barra Funda em SP. As fotos tiradas desses desenhos foram usadas na capa e no encarte do CD.

      Outro processo que existe é o free hand, em que se pinta livremente, cria-se sem a limitação do molde.

      As pessoas, ao contratarem esses artistas, geralmente não querem nada que pareça rude nem rebelde. Querem personagens já consagrados ou mesmo aqueles criados pelos próprios grafiteiros e até figuras abstratas. O preço depende do tamanho do muro, da parede e fica por volta de R$250,00, sem contar a mão-de-obra. As latas de spray são de R$13,00 a 15,00. Mesmo preferindo todo o trabalho feito com spray, os grafiteiros às vezes misturam látex, isso interfere no preço também.

      Quem grafita por puro hobby banca todo o material, trabalha praticamente de graça e pelo encanto e prazer da arte urbana.

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Bicicleteiros fazem protesto clandestino

Publicado por carlacarrara em 17/Outubro/2007

Por Carla Carrara

     Desde o dia 24 de fevereiro desse ano o transporte de bicicletas no metrô está liberado aos sábados, das 15h às 20h, e aos domingos e feriados, das 7h às 20h. Isso não só facilita a vida dos ciclistas como incentiva as pessoas a praticarem esportes.

     Não obstante com essa nova medida, os bicicleteiros da cidade de São Paulo fizeram um apelo nas principais avenidas reivindicando uma ciclovia: durante um encontro de ciclistas ativistas, a Bicicletada, na noite de 31 de agosto, eles desenharam, clandestinamente, bicicletas brancas na pista direita de avenidas como a Sumaré e a Paulista. Porém, explica o atuante do grupo e jornalista Beniggio: “São pessoas que foram ao encontro e resolveram protestar isoladamente”. Os principais objetivos deles são: divulgar a bicicleta como um meio de transporte, criar condições favoráveis para o uso deste veículo e tornar mais ecológicos e sustentáveis os sistemas de transporte de pessoas, principalmente no meio urbano.

     Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, em vias municipais, apenas a prefeitura pode fazer a sinalização. “Só o poder público pode fazer isso”, explica o advogado Cyro Vidal. Ainda não há uma punição estipulada para a infração. A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), responsável pelo sistema de sinais na cidade, desconhecia os desenhos, que por sua vez serão avaliados para saber se serão apagados.

     O aluno da Global Village, R.C.*, alega que morou em Vancouver por seis meses e os ciclistas tinham uma faixa exclusiva com o desenho no chão, que por sinal é o mesmo que o da manifestação. Além disso, “a bicicleta pode ser carrega em todos os meios de transporte público, todos os dias da semana”, no entanto não nega que a medida tomada em fevereiro no Brasil seja um grande progresso.

     E a pergunta que não quer calar: será que uma ciclovia diminuiria o mundaréu de carros que passa por essas grandes vias urbanas? O urologista de 46 anos, que pelada aos domingos com um grupo que sai da frente da Fnac, Wagner Ávila, acredita que “se houver um bom planejamento, as ciclovias deveriam existir nas principais avenidas da cidade” e que isso com certeza acabaria incentivando as pessoas irem trabalhar de bicicleta. “Nos fins de semanas, teríamos um público muito maior. Com isso as pessoas vão estar se exercitando, menos poluição, maior confraternização e melhor uma qualidade de vida”. Assume ainda ter inveja de seu amigo que mora em New York e vai trabalhar três vezes por semana de bicicleta.

     Um grande exemplo de que as pessoas estão se conscientizando em São Paulo foi a participação, pela primeira vez, do Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro). O evento começou em 1998 em 35 cidades francesas, se expandiu para a União Européia e em 2001 chegou no Brasil.

     O acontecimento teve muitos adeptos. No final de semana, foram mobilizados mais de 300 funcionários da CET para interditar e desviar 130 km de vias para a realização das atividades programadas.

* A pessoa preferiu não ser identificada.

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Mudança de itinerário de ônibus prejudica moradores de Perdizes e estudantes

Publicado por barbaragm em 16/Outubro/2007

Por Bárbara Guimarães

     Há aproximadamente um mês, a SPtrans alterou o itinerário da linha 637H Jardim Helga – Metrô Barra Funda, que agora se chama 637H Jardim Helga – Pinheiros. O ônibus não passa mais por Perdizes e Barra Funda, prejudicando assim vários moradores e estudantes da PUC-SP.

     A mudança ocorreu pelo fato de a empresa que era responsável pela linha, Cooperauhton, ter sido cassada após 3 de seus ônibus terem soltado as rodas, acidentes que deixaram 9 feridos e 1 morto.

     Segundo a SPtrans, a opção para os passageiros que desejam ir à região da rua Cardoso de Almeida é utilizar a linha 177P Butantã USP – Pedra Branca, que além de efetuar o trajeto dos pontos não mais atendidos pela 637H possui frota dimensionada para atender a demanda extra com intervalo de oito minutos no período da manhã e 15 minutos no período da tarde.

     Os usuários, entretanto, não estão satisfeitos com a troca, e contradizem as informações fornecidas pela SPtrans. Segundo os entrevistados, o período de tempo entre os ônibus Butantã-USP é de 25 a 30 minutos no período da tarde. Outra reclamação é a de que, com a retirada do Jardim Helga, tanto o Butantã-USP quanto o Metrô Ana Rosa (ônibus que faz o mesmo trajeto que o Butantã-USP até rua Doutor Arnaldo, e segue para a Avenida Paulista), estariam constantemente lotados.

     Há ainda reclamações de pessoas que, com a retirada do Jardim Helga, são forçados a pegar mais de um ônibus, é o caso de Rodolfo Barros, que estuda publicidade na PUC-SP. Ele mora no Morumbi e atualmente pega 2 ônibus para ir para casa.

     A SPtrans afirma que não há previsão para a reposição da linha, e que, por enquanto, está apenas registrando queixas dos que foram prejudicados pela troca. O telefone para realizar essas reclamações é 0800-7710118.

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Linha Lilás do Metrô não facilita a vida da população

Publicado por karllatatto em 11/Outubro/2007

Por Karlla Tatto

     Os moradores da região de Santo Amaro se entusiasmaram com a chegada do metrô em outubro de 2002. A entrega da Linha 5 – Lilás,  que liga o Largo Treze de Maio até o Capão Redondo, prometia levar o meio de transporte coletivo mais eficaz para bairros mais periféricos da capital e assim facilitar a vida de quem mora longe dos grandes centros. No entanto, os 8,4 km de extensão e as seis estações que podem atender cerca de 27.526 passageiros diariamente não têm grande serventia para seus usuários.

     A maioria dos potenciais passageiros da Linha 5 trocam as plataformas vazias, os assentos livres e o ar condicionado pelos ônibus abafados e lotados.  José Eugênio Costa, 24, mora em Santo Amaro e trabalha no Vale do Anhagabau. Todos os dias percorre esse longo trajeto e nada de metrô. “Prefiro pegar um ônibus até o centro. Gasto 20 minutos, meia hora, no máximo. E com o bilhete único gasto só uma condução”. Severina Santos Silva, 40, também desvia da estação: “Trabalho em Pinheiros e, se fosse de metrô, demoraria muito mais devido à baldeação e aos longos intervalos entre os trens”. 

     A Linha Lilás é a única linha do metrô que não possui ligação com as demais. Os US$ 642 milhões gastos na obra estão longe de se tornarem lucro para o governo. Mas, como uma região carente em transporte público deixa uma obra fabulosa às moscas? Os especialistas em transporte têm a resposta. “A Linha 5 só dá a possibilidade de o passageiro fazer a baldeação com a Linha C – Azul da CPTM na estação Santo Amaro. Essa estação fica longe do centro da capital e isso não atrai os passageiros”, diz Rogério Cunha, funcionário da CPTM. Fora a falta de integração com as outras linhas, a concorrência com os terminais de ônibus é grande. Nada mais do que três terminais (Capelinha, Santo Amaro e João Dias) ficam próximos às estações e oferecem dezenas de opções para ir direto ao centro sem baldeações e contando com a ajuda dos corredores para diminuir o tempo da viagem. “Para o passageiro, quanto menos ele tiver que trocar de meio de transporte, melhor. Por isso preferem trocar o conforto do metrô por um ônibus superlotado. Eles vão cheios, mas vão direto ao destino final” explica o consultor em transporte Getúlio Hanashiro.

     Hanashiro é ex-secretário de transportes da capital e também nos conta que o valor arrecadado com a tarifa não paga nem o custo operacional da linha. O preço da tarifa também pesa na escolha dos passageiros. Apesar de o governo estadual se vangloriar pela integração do bilhete único nos ônibus, trens e metrôs, quando o passageiro troca o ônibus por um dos vagões do metrô ou da CPTM a passagem não sai de graça. “A grande bandeira da campanha do José Serra era levar o bilhete único para toda a rede de transporte. Ele fez isso, mas acabou com o princípio básico do sistema que era o de fazer o passageiro pagar uma única passagem e no período de duas horas utilizar o sistema de transportes sem nenhum custo adicional” critica Jilmar Tatto, ex-secretário de transportes do governo de Marta Suplicy e responsável pela implantação do bilhete único e do sistema Interligado de transportes.

     Mas nem tudo são críticas, o deficiente físico José Antunes da Silva é todo elogios à estação Lilás. “É a única que possui toda a infra-estrutura que nós, cadeirantes, necessitamos: rampas, elevadores, espaços para acomodar nossas cadeiras. Sem contar que os funcionários sempre estão dispostos a ajudar. Todas as estações deveriam servir de modelo para as demais linhas”.

     Muito luxo, pouca utilidade. A esperança de quem mora na região sudoeste de São Paulo fica por conta do término das obras na Linha 4 – Amarela que ligará bairros como o Morumbi e Pinheiros e terá integração com as demais linhas.

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Jovens saem cedo de casa para estudar

Publicado por nathynhan em 8/Outubro/2007

Por Nathália Nhan

     Tem se tornado cada vez mais comum estudantes deixarem suas casas para estudar em outras cidades. E São Paulo não é o único destino. Cidades interioranas com universidades federais como a Unesp, UFSCar e Unicamp também atraem muitos desses jovens.

     O mais interessante é que o fator “saudade” parece não ser um empecilho tão grande assim. A longa distância dos familiares e dos amigos torna-se apenas mais um obstáculo a ser superado e a grande responsável por isso é a vontade de cursar a faculdade.

     Vinícius Adorno, 17, sempre morou em Poá, município do Alto Tietê, mas atualmente vive em Franca, interior de São Paulo, porque cursa a faculdade de Direito da Unesp, “gratuito e um dos melhores do estado”, afirma. Para ele, o baixo custo de vida da cidade colabora muito, assim como a própria distância que, apesar de “meio difícil ficar longe da família e dos amigos depois de um tempo [a distância] contribui para a gente aprender a se virar sozinho”, diz.

     A estudante de jornalismo da PUC-SP Aline Küller, 18, veio da cidade de Cordeirópolis, também interior de São Paulo, e fez o caminho inverso. Mesmo tendo sido aprovada pelo mesmo curso na PUC-Campinas, e tendo ido para a lista de espera da Unesp, em Bauru, Aline preferiu a capital. “Se eu fosse para a Puccamp eu viajaria todo dia, porque fica a uns 40 minutos de Cordeiro, mas eu e meu professor achamos o currículo daqui [PUC-SP] melhor”, já em relação à Unesp, a estudante conta que o dono de um jornal da região a aconselhou que “São Paulo abriria muito mais portas para mim que Bauru”.

     As oportunidades de emprego que São Paulo oferece fascinam muitos desses estudantes. A grande maioria, mesmo estudando no interior, pensa em exercer a profissão na “cidade grande”. Esse é o caso de Vinícius que diz que, mesmo com a grande quantidade de estágios oferecidos em Franca, “a área de trabalho é um pouco escassa, porque está longe dos grandes centros.”. A estudante de jornalismo da PUC-SP, Fabiana Colombo, 18, veio da cidade de Sertãozinho e planeja seu futuro profissional da mesma forma. “Gosto muito de Sertãozinho, mas acho que para a profissão que escolhi lá não é um bom lugar”, concorda.

     Adaptar-se a uma nova casa, uma nova cidade, uma nova rotina, para eles, faz parte de um processo de amadurecimento. “Acho que está sendo uma experiência muito importante na minha formação pessoal, eu mudei muito desde que vim morar aqui [São Paulo], aprendi a tolerar e relevar muitas coisas que antes não conseguia suportar”, diz Fabiana.

     Tornar-se independente é algo que se aprende sozinho, mas a capacidade de lidar com a liberdade e com as responsabilidades que esse processo implica vem da educação recebida em casa. O aprendizado começa no berço, mas ninguém sabe ao certo quando termina, se é que termina.

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Há 15 anos, eram 111 presos

Publicado por gabrielamoncau em 4/Outubro/2007

Por Gabriela L Moncau

“E quando ouvir
o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos,
mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos,
ou quase brancos quase pretos de tão
pobres
E pobres são como podres
e todos sabem como se tratam
os pretos”
“Haiti”, Caetano Veloso e Gilberto Gil

     Dia 2 de outubro de 2007, terça-feira, completaram 15 anos do massacre do Carandirú. Os policiais que participaram da operação não receberam nenhum tipo de punição e são condecorados até hoje. Quanto aos 111 (muitos dizem que foram muito mais mortos) empilhados do outro lado nesta longa noite dos paulistanos, o Estado tapa o nariz, a justiça os olhos e o cidadão dorme.

     Tudo começou com uma briga de presos no Pavilhão 9 , tentando pendurar roupas no varal. Deveria terminar como mais um dos rotineiros tumultos da Casa de Detenção do complexo do Carandirú, na zona norte de São Paulo. A briga, porém, terminou com um dos mais marcantes massacres de violenta intervenção policial em São Paulo e mesmo no Brasil, ganhando repercussão internacional.

     O pavilhão e toda a Casa de Detenção foram desativados dia 15 de setembro de 2002. Ocupando o espaço da antiga penitenciária, hoje se encontra um parque público, com centros de cultura e lazer, local onde, por exemplo, o rapper Rappin Hood deu show na virada cultural desse ano.

     As lembranças ficaram nas memórias dos paulistanos, sobreviventes e dos familiares dos mortos. Alguns presos chegaram a se misturar com os cadáveres para fingir que estavam mortos e tentar sobreviver.

     O coronel da reserva Ubiratan Guimarães, que comandou a invasão da Polícia Militar na Casa de Detenção, foi condenado, em junho de 2001, a 632 anos de prisão pela morte de 102 dos mortos e cinco tentativas de homicídio. Por ser réu primário, recorreu da sentença em liberdade. Não foi punido. Em setembro de 2006 foi morto em seu apartamento num crime ainda não esclarecido.

02 de Outubro de 1992

     Há 15 anos inicou-se um tumulto no Pavilhão 9 do Carandirú. Era dia de visita e a agitação era grande. Do lado de fora iriam chegar mulheres, amigos e filhos. Os dois presos começaram a se bater e não demorou para que o alvoroço se generalizasse.

     Os agentes penitenciários, separados dos presos por muros e cancelas, ao perceberem o tamanho da pancadaria, assustados, chamaram a polícia. A notícia correu rapidamente por diferentes fios telefônicos até atingir os ouvidos dos maiores líderes da polícia da época.

     Os homens blindados chegaram em pouco tempo. A luz e a água foram cortadas. A súplica de muitos inocentes era ignorada e foi calada com balas de chumbo.

     Durante a rebelião, os presos queimaram colchões, arquivos e montaram barricadas nos corredores para impedir o acesso da polícia. O então secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, teria telefonado para o governador Luiz Antonio Fleury Filho, que estava viajando pelo interior do Estado em campanha política, era véspera de eleição. Fleury deu a ordem para a polícia entrar sem dó.

     O coronel Ubiratan Guimarães assumiu o comando da operação. Em uma tentativa de pôr fim à rebelião, a Polícia Militar, armada e com cães, invadiu a penitenciária.

     Sem negociação, a Rota ocupou o primeiro e o segundo andar do pavilhão. A tropa não era preparada para nenhum tipo de ação como essa e entrou no presídio armada até os dentes.

     Todos os presos que estavam no primeiro andar foram mortos. No segundo andar, morreram 60% dos detentos.

     No final de tudo eram poucos os presos que não haviam sido assassinados covardemente. Fleury não foi preso nem punido. O número total da chacina só foi divulgado oficialmente no dia seguinte, meia hora antes do encerramento das eleições municipais.

“Cada detento uma mãe, uma crença.
Cada crime uma sentença.
Cada sentença um motivo, uma história de lágrima,
sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio,
sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo.
Misture bem essa química.
Pronto: eis um novo detento
Lamentos no corredor, na cela, no pátio.
Ao redor do campo, em todos os cantos.
Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã…
Aqui não tem santo.
(…)
Ratatatá, Fleury e sua gangue
vão nadar numa piscina de sangue.
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de outubro, diário de um detento.”
“Diário de um Detento”, Racionais Mc´s

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Índice de adolescentes grávidas continua alto em SP

Publicado por carlacarrara em 28/Setembro/2007

Por Carla Carrara

     A Secretaria Estadual de Saúde declarou que o número de adolescentes grávidas em São Paulo diminuiu 4% de 2005 para 2006, porém ainda hoje um quinto das mães tem menos de 20 anos. Para o governador do Estado, José Serra, o índice ainda continua alto: “A gravidez na adolescência limita a vida da mãe, temos meninas de 14 anos, 15 anos que estão grávidas, que têm que abandonar a escola e acabam sem liberdade de escolha”, declarou ao jornal O Estado de S. Paulo dia 12 de outubro.

     Segundo o governador, essa queda é resultado da distribuição gratuita em 20 estações do metrô de anticoncepcionais e de pílula do dia seguinte. No entanto, para o secretário de Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, a diminuição está associada aos anos de instrução que o adolescente tem na escola; a distribuição de métodos contraceptivos de nada adianta sem que haja uma orientação.

A situação nas escolas

     De acordo com a pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o maior índice de gravidez ocorre nas regiões mais carentes de São Paulo, ou seja, onde estão as pessoas menos informadas. Todavia, as escolas públicas continuam sem orientação sexual, como é o caso da Escola Professora Zuleika de Barros M. Ferreira, localizado na zona oeste da capital paulista. A coordenadora do curso, I.M.*, disse que “não há orientação sexual, apenas eventuais palestras” e esquivou-se do assunto. Ainda na mesma região, a coordenadora do Colégio Miss Browne, B.A.*, disse que “os alunos não têm aula sobre o assunto, mas isso tem a ver com o programa adotado pelo Estado”.

     Nos colégios particulares não ocorre o mesmo. O Colégio Rio Branco, por exemplo, tem o projeto Qualidade de Vida, proposto aos alunos da 7ª e 8ª séries. Os estudantes desenvolvem o trabalho durante o ano, orientados por uma professora, e no último trimestre apresentam seminários no auditório para todos os alunos do Ensino Fundamental II, como declara a orientadora C.G.*. Além desse projeto, no terceiro ano do Ensino Médio, o professor de biologia Silvio Higa faz pesquisas com os alunos e publica as estatísticas em seu site. Higa afirma que “mesmo após a orientação no Fundamental, os alunos chegavam no terceiro ano com dúvidas absurdas e isso me fez desenvolver o projeto”.

     Já no Colégio Bandeirantes o projeto é mais extenso. O CPG (Convivência em Processo de Grupo) foi criado para que os adolescentes pudessem obter informações atualizadas, debater e fazer escolhas conscientes. O CPG é desenvolvido em aulas semanais, da 5ª série do Ensino Fundamental II à 1ª série do Ensino Médio. Além do que é desenvolvido em sala, há a seção “Sex Tips” no site do colégio, onde os alunos tiram suas dúvidas online com a especialista em Orientação Sexual, Dra. Maria Helena Vilela, sem precisar se identificar. Questões selecionadas com suas respectivas respostas são publicadas mensalmente no site.

* As pessoas preferiram não ser identificadas.

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Invasão da PUC completa 30 anos

Publicado por Marcelo Martino em 22/Setembro/2007

Por Marcelo Martino

     Hoje faz 30 anos que a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) foi brutalmente invadida pela polícia militar paulista, numa ação comandada pelo coronel Erasmo Dias. A invasão se deu devido ao III Encontro Nacional dos Estudantes (ENE), cujo objetivo era tentar reorganizar a UNE, o que foi considerado um ato subversivo pelos homens do exército.

     Na noite de quinta feira, 22 de setembro de 1977, por volta das 21 horas deu-se início um Ato Público na faculdade, com a presença de cerca de 2 mil estudantes. Estava sendo lida a ata da reunião, quando viaturas da tropa de choque pararam na esquina da rua Bartira com a Monte Alegre e surpreenderam os alunos que estavam em frente ao Teatro da Universidade Católica (TUCA). O corre-corre dos estudantes foi geral, e o clima de terror instaurado pelos policiais tomou conta do local, a polícia não fazia a menor distinção, a ação era violenta contra qualquer um que passasse na frente deles.

     Mais de mil estudantes foram pegos e levados ao estacionamento em frente a universidade e passaram por uma triagem policial. Desses, 700 foram levados ao batalhão Tobias de Aguiar, localizado na Av. Tiradentes, onde só foram liberados aos poucos.

Estudar na PUC nos anos de chumbo 

     Para traçar um perfil de como era estudar na PUC no período da invasão,  a ex-estudante de História, Helenize Martins Pessoa, formada em 1979, concedeu uma entrevista para o Retinas.

MM: Em que ano você entrou e saiu da PUC?
    
HM: Eu entrei em 1974 (inclusive meu nº de matrícula era 1174/74), para cursar História, e me formei em 1979.

MM: Como se organizava o movimento estudantil na sua época?
  
HM: Era uma época muito complicada, os movimentos estudantis e os sindicatos eram mal vistos pelo governo, havia uma vigilância constante, até mesmo de agentes se passando por estudantes. Eu não participei de nenhum movimento, por isso não posso te dizer ao certo sobre sua organização. Entretanto, havia reuniões secretas, enfim, tudo era camuflado. Inclusive a invasão ocorreu por causa de uma reunião SBPC proibida pelo governo.
 
MM: Você se considerava uma militante?

HM: Não. Eu trabalhava em período integral e estudava durante a noite, mas tinha consciência do que ocorria.

MM: O que você estava fazendo no dia da invasão?

HM: Eu assistia aula no momento da invasão no prédio novo, e minha irmã assistia à uma assembléia em frente a Universidade. O clima essa noite estava muito pesado e quando nos demos conta da invasão fugimos pela escadaria.

MM: Qual era o clima na universidade nos dias que se seguiram à invasão?

HM: Nos dias que se seguiram o clima foi de tristeza, consternação, revolta, surpresa…

MM: Era comum ver tropas policiais dentro na PUC?

HM: Tropas não, mas sabíamos da existência de agentes infiltrados em salas de aula, entre os estudantes, nas comemorações e festas.
   
MM: Qual foi a importância dessa experiência, a invasão da PUC, na sua vida profissional?

HM: Usei esse episódio como um rico instrumento ilustrativo quando lecionava a respeito da ditadura militar, da defesa da democracia (embora tenha falhas), na importância de votar (com consciência). Neste momento estou me sentindo uma “memória viva” contando isto pra você!

MM: Qual é o seu contato atual com a faculdade?
    
HM: Atualmente meus dois filhos estudam na PUC e, pretendo voltar à faculdade como aluna. 

A PUC hoje em dia 
    
     Matheus Aporta de Araújo, estudante do 2º ano de História, traçou um paralelo entre os estudantes da PUC nos anos da ditadura militar e os de hoje.

MM: Porque você escolheu a PUC?
    
MA: No meu curso, boas opções na cidade de São Paulo só a USP e a PUC. A USP eu não passei, mas na PUC sim, e pela tradição do curso eu resolvi me matricular. Mas a falta de organização do curso me surpreendeu negativamente.

MM: Você tem idéia do papel que a PUC teve na luta contra a ditadura?
    
MA: No meu curso esses fatos são lembrados, tanto pelos professores quanto por alguns alunos, então a gente acaba tendo uma noção disso. Mas eles acabam pondo uma áurea de heroísmo na PUC, o que eu não concordo muito. Ao invés de o pessoal refletir sobre isso, às vezes eles ficam só idealizando, mais ou menos como fazem com o Che Guevara, resguardada as devidas proporções, é claro. Isso por causa da grande admiração para com aqueles que lutaram contra o sistema a época.

MM: O que você sabe sobre a invasão da PUC?

MA: Eu tenho apenas vagas idéias. Na verdade, como eu disse, eu ainda não estudei a ditadura militar em no meu curso de história, o que eu conheço é o que o pessoal fala. Até aquele momento a PUC era um lugar relativamente seguro para os intelectuais, a instituição fazia de tudo para protegê-los, mais até do que na USP. O que eu sei é o que aconteceu em praticamente tudo que é invasão: violência contra os alunos.

MM: Na sua opinião a PUC ainda tem movimento estudantil?

MA: A PUC tem. Mas na minha opinião o movimento mais repele os alunos do que os coloca dentro do debate acadêmico. Por que tem a obrigatoriedade de levar um debate diferente, a turma da noite é bem mais participativa do que a minha. Eu acho que eles são desorganizados, o que acaba limitando o poder de atuação deles, poderia atingir um número bem maior de pessoas. Os alunos querem exigir bem mais coisas, mas não tem um movimento estudantil organizado. O movimento estudantil só se apresenta de fato com cartazes na parede, só assim sabemos dele.

MM: Porque a universidade perdeu essa característica?

MA: Primeiro porque eles são desorganizados. Segundo pelo extremo radicalismo de alguns que organizam o movimento. E terceiro, e mais importante, acho que as pessoas estão menos engajadas, é o fim das ideologias, acabam ficando apáticos. Hoje a preocupação é entrar no mercado de trabalho, não pensam no papel da universidade na sociedade e da força que tem nas mãos.

MM: Você se considera politicamente engajado?
 
MA: Eu me considero, em comparação com o resto da população brasileira, o que é difícil devido a triste situação do sistema educacional. Eu levo a sério meu voto, tomo atitudes que eu considero cidadãs e norteio minha vida por isso, estou numa ONG, e sempre me engajo em movimentos que eu considero coerente.

MM: Você considera seu C.A. (Centro Acadêmico) engajado?

MA: Engajado é, mas acho mesmo é que meu C.A. é desorganizado.

MM: Você considera a PUC de esquerda?

MA: Isso é muito relativo. Se você entrar em qualquer sala de História e falar que é de direita vai ser isolado, em compensação se você entrar em outras salas e for de esquerda vai acontecer o mesmo, eles vão pré-julgar. A PUC é bem dividida. Na sua maioria o prédio velho é mais consciente, e o prédio novo é mais anti-esquerda, o que acusa uma rixa infundada. E afinal, o que é esquerda e direita exatamente? Difícil definir. 
        
     A ação policial acabou tendo um efeito contrário ao esperado, pois só fortaleceu o movimento, e comprovou a força que os estudantes tinham. Uma placa do C.A. 22 de agosto, feita quando se fez um ano da invasão, resume bem a situação e o que se levou desse fatídico dia, ela tem o seguinte dizeres: “Não se cala a consciência de um povo”.

Para saber mais:

Documentário “Não se cala a consciência de um povo”,

http://www.youtube.com/watch?v=1QT94aSvF-k&mode=related&search= - parte 1

http://www.youtube.com/watch?v=P9AGedeSPu4&mode=related&search= - parte 2

http://www.youtube.com/watch?v=718T766fpQA&mode=related&search= - parte 3

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