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Laboratório de mídia online da PUC-SP – Alunos do 1º ano – Turma MC – 2007

Arquivo da categoria ‘Cultura’

Djavan volta a São Paulo após três anos

Publicado por dmekari em 2/Novembro/2007

Por Danilo Mekari

     O cantor e compositor Djavan não dava shows na capital paulista desde 2004, ocasião em que lançou seu então novo disco “Vaidade”. Após mais de três anos — sendo que nos dois últimos não deu as caras em lugar algum —, Djavan retorna a cidade para uma mini-turnê que terá mais três apresentações (de 2 a 4 de novembro), além das quatro já realizadas.

     Segundo o próprio, a pausa ocorreu pelo fato de sua esposa ter enfrentado uma gravidez muito difícil para nascer Inácio, o caçula do casal, que tem apenas dez meses. Outros filhos do cantor, Max e João Viana integram a banda que o acompanha — tocam guitarra e bateria, respectivamente —, além de Sérgio Carvalho (baixo), Renato Fonseca (teclados), Marcelo Martins, François Lima e Walmir Gil (trio de metais).

     O trigésimo ano na carreira do alagoano de Maceió também marca o lançamento de seu décimo oitavo álbum, nomeado “Matizes”, e as novas apresentações fazem a propaganda das 12 novas músicas assinadas pelo cantor. A gravadora é a Luanda Records, selo criado por Djavan. É bom lembrar: o músico tem um estúdio profissional em casa.

     O show

     Sexta-feira, dia 26. Aos poucos, o trânsito na rua Jamaris melhora, à medida que a hora marcada para o show se aproxima. Poucos chegam atrasados, e cabe uma explicação: não há lugar marcado nas mesas. Restará a pior posição em relação ao palco para quem por último chegar. O lugar está abarrotado; todos os ingressos foram vendidos. Com início previsto para as 22h, as cortinas sobem exatamente 22h25. Os aplausos são muitos, e só sucumbem quando Djavan sopra as primeiras melodias de uma nova canção.

     A seqüência de músicas — o famoso “set list” — foi bem escolhida: após cada música nova (muitas vezes desconhecidas) vinha uma clássica, em que a platéia descobria o poder de sua voz. É uma boa estratégia para o público ‘não cansar de não cantar’ e até mesmo o oposto. A freqüência ‘desconhecida depois conhecida’ não agüentou até o final, que foi dominado pelos maiores clássicos de Djavan.

     “Faltando um pedaço” é aplaudida do início ao fim, assim como “Eu te devoro” e “Flor-de-lis”. Djavan fala sobre o Rio de Janeiro — onde cresceu artisticamente — antes de declarar-se à cidade na canção “Delírio dos mortais”, que tem um quê de bossa nova no melhor estilo da música carioca. Djavan também sabe surpreender: todos ficam boquiabertos quando toca “Sorri”, tradução que ele mesmo fez para a música de Charles Chaplin, “Smile”.

     Em “Oceano”, mal se ouve a voz — afinadíssima, sempre — do cantor. Já nas primeiras palavras, o canto da platéia supera o do músico. Nas músicas dançantes que marcaram tanto seu estilo, Djavan arrisca uns passos e as mulheres gritam adjetivos para ele. O trio de metais não pára de dançar um minuto sequer: quando o público percebe, começa a dançar junto com eles.     

     No fim da apresentação, ninguém mais está sentado. À frente do palco, mulheres e até marmanjos se apertam para chegar mais perto do ídolo. Djavan cumprimenta a maioria, enquanto embala seus maiores sucessos, “Azul” e “Sina”. Quando finge que acabou, a gritaria é ensurdecedora, aliada aos assovios no tom mais agudo. Djavan aceita voltar, e encerra o show com “Se” e “Lilás”. E todos aplaudem de pé.  A turnê ainda passará pela Europa, Japão e Estados Unidos. O público aprovou, e quem puder ir, vá. Vale a pena.

     Todos sentiram falta de clássicos como “Nem um dia”, “Fato consumado” e “Samurai”, mas  mesmo assim a seleção de músicas foi considerada ótima. Um dos destaques do show foi “Imposto”, canção que figura na última obra do cantor.

     Político

     Atualmente ele se considera apolítico, mas ainda é simpatizante do Partido dos Trabalhadores. Djavan defende ferrenhamente a reforma agrária e mostra preocupação com a saúde e educação. Como artista, Djavan faz o que pode para participar de campanhas sociais que apóia.

     “Imposto”, música inédita, está cheia de críticas a todos os governantes do país. “Integração Social aonde? Só se for no carnaval” e “Pra quem vai tanto dinheiro? Vai pro homem que recolhe o imposto / pois o homem que recolhe o imposto / é o impostor” são alguns dos versos. Quem será o impostor? 

     Ainda no fim da música, Djavan implantou frases do tipo “o voto no congresso tem que ser aberto / o povo tem que saber em quem você votou“, crítica direta ao escândalo Renan Calheiros.

Djavan. Citibank Hall, Av. dos Jamaris, 213, tel (11) 6846-6040. De 2 a 04/11. Sexta e sábado, às 22h, e domingo, às 21h. De R$ 80 a R$ 140. 
 

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Gael García Bernal divulga seu primeiro filme como diretor

Publicado por lemendes em 27/Outubro/2007

Por Letícia Mendes

Natália Peixoto

O mexicano Gael García Bernal anuncia seu primeiro filme: “A boa notícia é que é um filme curto”

     De passagem pelo Brasil por exatos três dias, o atraente ator mexicano Gael García Bernal  foi convidado para participar do debate promovido pela 31ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, realizado no sábado, dia 20, no auditório da FAAP.

     O debate foi precedido da exibição do filme “Déficit” que marca a estréia do ator como diretor. O filme conta um dia na vida de Cristobal (interpretado pelo próprio Gael), rapaz de vinte e poucos anos, esnobe e de classe alta, fã de rap e filho de um dos políticos mais corruptos e poderosos do país. Por meio desse personagem, ”Déficit” explora uma determinada camada da sociedade e a relação desta com as demais classes sociais.

     Esse tema foi lembrado pelo diretor da Mostra, Leon Cakoff, na abertura do debate, que também contou com as presenças do diretor da Faculdade de Comunicação da FAAP, Rubens Fernandes Júnior, do produtor Pablo Cruz e do apresentador Serginho Groisman, que intermediou a mesa.

Letãia Mendes

O ator mexicano Gael García Bernal entre o diretor da Mostra, Leon Cakoff, e o produtor do filme “Déficit”, Pablo Cruz

         Questões financeiras também foram discutidas. Quando perguntado sobre as dificuldades em distribuir um filme independente, Gael o comparou a um produto orgânico, cujo número de interessados no mundo industrial em que se vive ainda é pequeno. “Para entrar nos grandes esquemas de distribuição, o filme tem de ser épico, de grande impacto, o que não é a proposta de uma produção independente”, afirmou o ator. Sobre o custo da produção Gael não quis responder o valor exato, mas deu a certeza de que “Déficit” foi mais barato que o filme “Titanic”.

     Com essa mesma simpatia Gael seguiu durante o debate todo, inclusive respondendo perguntas feitas pela platéia. Uma estudante de cinema, ao falar que teve uma sensação de vazio, de que faltava algo mais no filme e ao perguntar se o Gael faria outro filme seguindo a mesma temática, obteve a seguinte resposta do ator: “Você quer assistir ao “Superávit”?”. Depois de altas gargalhadas da platéia, Gael explicou o significado do título. “O filme se chama “Déficit”, porque é sobre uma geração que cresceu com essa palavra”, afirmou Bernal. Inclusive todo os personagens possuem “um déficit emocional e de identidade”. ”Esse sonho idôneo dos países da América Latina de entrar no primeiro mundo ruiu completamente”, finalizou Gael.

     Agora, resta ao público que não pôde participar da 31ª Mostra esperar que o filme seja distribuído pelas salas de cinema do Brasil. Para os que não têm paciência para esperar, uma boa notícia: Gael García Bernal é protagonista do filme “O Passado”, de Hector Babenco, que estará em cartaz a partir de hoje, sexta, 26 de outubro.

Tumulto na entrada da FAAP antecede o debate com o ator Gael García Bernal 

Por Bruna Campos

Natália Peixoto

     A 31° Mostra Internacional de Cinema em São Paulo conta com inúmeras atrações gratuitas, muitos filmes podem ser assistidos no vão do Masp, no Memorial da América Latina, no Centro Cultural São Paulo e na Fundação Armando Álvares Penteado, a FAAP.

     Os filmes em exibição contemplam diversos tipos de público. São filmes estrangeiros e nacionais; lançamentos ou clássicos e alguns conseguem agradar gregos e troianos. Esse é o caso do filme “Déficit”, dirigido pelo ator mexicano Gael García Bernal. O longa foi apresentado em três ocasiões distintas e em todas as salas ficaram super lotadas.

     Entre as três exibições havia uma mais especial, a do dia 20 de outubro na FAAP. Segundo a programação da 31ª Mostra, nesse dia seria feita a última apresentação do filme, com um detalhe especial: o diretor estaria presente e depois de concluída a projeção ele iria relatar a sua experiência por trás das câmeras.

     No próprio dia 20 de outubro o evento especial foi divulgado pelos jornais e para ampliar a receptividade do programa, a entrada era gratuita. Os jornais, no entanto, não divulgaram o horário de distribuição das senhas e eu, como muitas interessadas, liguei para a Fundação para obter mais detalhes. Liguei e a informação era: as senhas serão distribuídas uma hora antes do início da sessão, ou seja, às 18h30.

     Ainda eram 14h. Fui tomar um banho e almoçar, sem saber que a fila já era razoável nos portões da FAAP. Peguei o ônibus e cheguei à fila às 17h, ou seja, uma hora e trinta minutos antes das senhas serem distribuídas. Pensei “acho que vai dar”, mas estava enganada. Pedi para guardarem o meu lugar na fila e fui até a entrada me interar da situação, lá encontrei duas amigas que já tinham passado da catraca para dentro. “Como assim? Ainda são 17h”.

     A explicação dos monitores da Mostra era a seguinte: o pessoal chegou às 13h e pediu para passar as catracas porque estavam furando fila. Eram cerca de oitenta pessoas sentadas do lado de dentro da Fundação, todas com a senha garantida. O restante das pessoas, as do lado de fora, estavam inconformadas. Tinham chego antes da hora marcada, mas isso não adiantou nada.

     Depois de esclarecido o primeiro problema, o desrespeito ao horário divulgado pela Mostra, descobri um segundo aspecto desagradável. Dos 300 lugares do auditório da FAAP, duzentos eram reservados para os estudantes da mesma. E mais uma conclusão: um evento primeiramente voltado para o público em geral privilegiava os estudantes de uma das faculdades mais caras do país.

     Entre esclarecimentos e bate-bocas, carros da PM e do Deic iam e viam, um deles solicitado por parte do público que queria fazer um boletim de ocorrência.

     Estávamos todos aguardando um comunicado oficial dos organizadores, a fila já tinha se transformado em um grande amontoado no “Gate 1”, enquanto isso no “Gate 2 “ os alunos da universidade passavam tranqüilamente suas carteirinhas no sensor e entravam para assistir ao filme.

     O tempo foi passando e a insatisfação aumentando. Um dos produtores foi chamado aos gritos por uma das “filantes” que lhe pediu esclarecimentos. O produtor chegou mais perto do público e disse que estava negociando mais lugares com a Fundação. Segundo ele o problema era que a FAAP, uma das patrocinadoras da Mostra, não tinha explicitado em contrato a posse de 67% dos assentos para os seus alunos.

     Já eram quase 19h30 e nada tinha mudado, ou melhor, tinha. Apesar de não conseguirem entrar, os “filantes” se organizaram e começaram a passar um abaixo-assinado. As assinaturas seriam entregues aos organizadores e se possível ao próprio Gael, o texto do abaixo-assinado fazia referência ao descumprimento de horário e ao privilégio dos estudantes da universidade particular.

     A cada instante uma nova manifestação acontecia: primeiro as assinaturas, depois os gritos de guerra, cantados por algumas centenas de pessoas, “A FAAP é uma merd…”. Tudo isso sendo acompanhado atentamente pelos seguranças da Fundação e pelos jornalistas presentes: “Istoé, gente”, “Band News” etc.

     Por volta das 20h, as pessoas começaram a se dispersar, voltaram para casa, foram para o bar, mas antes tinham feito algumas resoluções: enviar e-mails para o site da Mostra e entregar aos responsáveis pelo evento as mais de 300 assinaturas recolhidas durante cerca de três horas de protesto e indignação.

     Não vimos o Gael, nem o seu primeiro filme, mas demos um toque para que, ano que vem, certas parcerias sejam revistas e de que gostamos de cinema e, sobretudo, de respeito.

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O Baile chega a São Paulo

Publicado por lumigueres em 18/Outubro/2007

Luisa Migueres 

Por Luisa Migueres   

     Em 1980, o diretor italiano Ettore Scola presenteia a história do cinema com o homônimo “Le Bal”. Um musical que conta meio século de história através de um salão de baile. 

     Sempre freqüentado pelas mesmas figuras caricatas, o baile em questão caracteriza-se de acordo com as tendências musicais de cada época. Os personagens também passam por mudanças, tanto na dança, como na moda e comportamento.

     A falta de diálogos é talvez a característica mais marcante no filme de Scola, que na verdade não faz falta alguma, é elemento não apenas bem próprio das cenas, mas também fundamental para uma atenção maior do público aos gestos e trejeitos dos personagens. Não é o tipo de filme que se pode assistir fazendo as unhas. Portanto, existe um cuidado maior em relação às situações retratadas, estabelecendo um limite dramático e cômico. As atuações não são forçadas, o que impede que o silêncio dos atores seja incômodo.  

     A França é o país em questão e o período que define as mudanças da história vai de 1932 a 1980. Nasce a Frente Popular, seguida pelo período de ocupação nazista, a Resistência parisiense, a chegada do rock’n’roll americano etc. Tudo acompanhado por trilhas sonoras marcantes de cada década.

     “O Baile” brasileiro, musical de teatro dirigido por José Possi Neto, renomado no meio artístico – e a cargo de curiosidade, irmão de Zizi Possi – segue o mesmo trajeto do filme, sem diálogos e com uma seqüência dos momentos dos diferentes bailes: a chegada das pessoas, o baile em si,a formação dos casais, a dissolução dos mesmos, as situações engraçadas, a influência dos acontecimentos históricos etc. A situação mais cômica é, sem dúvida, a cena em que dois militares chegam ao baile – durante a ditadura militar – e apreendem todos os objetos que encontram da cor vermelha, fazendo uma referência a perseguição dos comunistas.

     Jean-Claude Penchenat, detentor dos direitos autorais de “O Baile”, deu a seguinte orientação, quando a proposta de montar o espetáculo lhe foi apresentada: todas as montagens da peça devem retratar a história do país em que forem encenadas. Portanto, a montagem brasileira apresenta quatro décadas da história do Brasil – do suicídio de Getulio até a reconquista da democracia. Penchenat é também um dos criadores do Théâtre du Soleil, diretor do Théâtre du Campagnol e foi o responsável pela contratação de Ettore Scola para fazer o filme.

     A produção ficou por conta da atriz global Tássia Camargo, que realiza o projeto idealizado há 7 anos. São 20 atores, 150 figurinos e um quinteto musical reproduzindo músicas populares marcantes na história brasileira. Foram montados 7 bailes diferentes: do Catete, Anos Dourados, Baile da Alvorada, dos Estudantes, Baile Psicodélico, da Discoteca e, por último, o Baile da Saudade, onde os freqüentadores se encontram para uma última dança.

     “O baile” está em cartaz no Teatro Cultura Artística – Sala Esther Mesquita, na Rua Nestor Pestana, 196, as sextas e sábados (21 h) e domingos (18 h) até 25 de novembro. Os preços vão de R$40,00 a R$80,00.

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“Tropa de Elite” estréia em meio a divergências culturais

Publicado por inapereira em 15/Outubro/2007

Por Marina Pereira

O polêmico filme é palco para a discussão da violência policial. Em meio a tantos filmes e documentários sobre violência urbana, dando enfoque no tráfico de drogas e na reação policial, surge o filme “Tropa de Elite” de José Padilha. Sua estréia, em 05 de outubro, já gerou conflitos e polêmica, já que assuntos como a corrupção militar, o tráfico de drogas, a violência da polícia geram desconfortos para tais entidades que trabalham diariamente, para o bem-estar ou não do cidadão.

O filme que abriu o Festival de cinema do Rio aborda, acima de tudo, as divergentes visões sociais que possuem policiais, bandidos, estudantes de classe média e como elas se encaixam, ou melhor, não encaixam na sociedade de hoje em dia.

O enfoque do filme no BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) também gerou conflitos e discussões por parte de policiais que não se sentiam à vontade para exibir sua ação cotidiana em um cinema para mais de 300 pessoas e acabaram recorrendo à Justiça. Este episódio foi explicado pelo próprio diretor do filme em entrevista à revista Continuum: “Aquelas pessoas tinham esse direito e tomaram a atitude que consideravam adequada. A juíza, portanto, se pronunciou a respeito, argumentando que há na obra uma crítica genérica ao sistema, e que este não pode ser identificado exclusivamente como o BOPE ou a Polícia Militar. O fato interessante é que todos os oficiais que foram à Justiça, exceto um, retiraram seu nome”.

A questão da Pirataria

O filme, mesmo mostrando que dentro do BOPE, existem policiais honestos que combatem os corruptos, não impediu a ilegalidade que rolou solta essas últimas semanas. A pirataria do filme “Tropa de Elite” foi uma das responsáveis por tantos conflitos sociais entre Justiça, policiais, estudantes etc. Assunto que o próprio diretor também retratou em sua reportagem: “Defender a pirataria em nome da democratização do conteúdo cultural é, para mim, uma atitude míope. Defender isso é defender a idéia de que a divulgação do conteúdo cultural justifica a sonegação de impostos, o trabalho informal, a corrupção policial”.

Em uma conversa com estudantes que acabaram assistindo o filme pirateado, Victor Pozzi Bastos Duarte, aluno de Educação Física da Unip dá o seu depoimento em entrevista:

MP: O que achou do filme?

VD: Gostei bastante do filme, ele é polêmico e como me interesso muito por filmes nacionais, não pude deixar de ver. Retrata uma realidade nacional, mas visa à violência no Rio de Janeiro. Acredito que tenha espelhado bem a vontade do diretor de retratar o lado da polícia não corrupta.

MP: Qual a sua visão desta realidade? É a mesma do filme ou você pensa diferente?

VD: Minha visão é compatível com a do filme, mas ainda acredito que existem policiais corruptos, mesmo no BOPE. Acredito que além de sua profissão, existe por trás toda sua vida particular, a sua família. O policial que faz vista-grossa não é necessariamente corrupto. Ele simplesmente pensa em primeiro lugar na sua vida e da sua família. Ainda mais quando não se é bem pago pelo governo.

MP: O que foi acrescentado do filme a você como estudante?

VD: Nada além do que eu já sabia. O mundo do tráfico existe em qualquer lugar e não é a tentativa de amenizar isso através de um filme que irá mudar a minha opinião.

MP: O que você acha da prática ilegal da pirataria?

VD: Eu acho desonesta, porém honesta. Ela é desonesta porque os vendedores ganham dinheiro à custa de outras pessoas, sem permissão. Mas ela é honesta, pois o público atingido é a classe inferior, justamente a classe que não tem condições de assistir filmes no cinema, então, de certa forma, consegue ampliar sua visão cultural por um preço menor e que se encaixa nas suas condições financeiras.

O filme que gerou tantos conflitos segue a marcha dos temas mais polêmicos na sociedade atual e por isso, muitas vezes mais aclamado. Sua estréia, antecipada para 05 de outubro confirmou a aceitação ou não do público frente a problemas que até hoje aterrorizam as comunidades.

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Falta público e incentivos mas sobra talento

Publicado por nathynhan em 13/Outubro/2007

Por Nathália Nhan

     Nada de Glamour. Para se transformar em um ator ou uma atriz de talento, é preciso muita ralação. Apesar de algumas diferenças, tanto cursos de formação superior quanto cursos profissionalizantes, preparam o ator para se destacar no seu meio através de muita versatilidade, é o que diz Antônio Canesin, 19 anos, aluno da Escola de Atores Wolf Maya. “[o mercado de trabalho] Está sempre concorrido. Não basta ser um ator, hoje tem que ser de tudo”.

     As pessoas que seguem essa carreira profissionalmente, já sofreram muito preconceito. Era difícil alguém que não perguntasse a um jovem que quisesse cursar artes cênicas algo do tipo “e o que mais você vai fazer?”, como se já não fosse suficiente. Mas segundo Canesin, ou Tonho, como gosta de ser chamado, “pessoas com esse pensamento, são pessoas antigas. As coisas mudaram hoje. O campo de trabalho está realmente cada vez mais competitivo”. Ele tem pretensões de cursar Artes Cênicas na USP e hoje se prepara para isso no cursinho e na Escola Wolf Maya. “Acho que um curso profissionalizante não dá tanto embasamento para um ator quanto um curso superior. Eles trabalham muito o corpo, mas há poucas teorias”, diz.

     Um exemplo é o curso de Comunicação das Artes do Corpo, da PUC-SP, criado há 11 anos pela professora Christine Greiner, que ainda dá aulas lá. O curso é inédito no Brasil e no mundo, portanto a procura é cada vez maior. Segundo a aluna Fernanda Roman, 19 anos, “artes do corpo não forma só atores, dançarinos e performers, forma artistas”, o que faz muita diferença na hora escolher profissionais para compor um elenco teatral, o que não ocorre na televisão, pois “se você não for bonito e magro vai ser difícil conseguir entrar”, lembra. Roman ainda critica toda essa glamurização da profissão e diz que a grande culpada é a televisão. “Ela trata os atores como deuses, faz festas que passam a tarde em programa de fofoca, e essa é a visão que a massa tem do artista”, critica.

     Outro fator também muito criticado é o público brasileiro que não valoriza tanto o artista. Canesin reclama que “o público vai mais a peças comerciais. As peças alternativas são muito boas e muito mais interessantes e não tem tanto público”. E isso tem explicação? Roman arrisca. “Talvez porque a população do Brasil seja tão pobre que não tem tanto contato com a cultura, até porque, convenhamos, os ingressos de teatro são bem caros. Então acabam ficando em casa vendo TV sem se dar conta de que tem muita gente boa fazendo coisa de graça lá fora. Os mesmos, quando passam na rua e vêem alguma representação, não vêem como arte, pois eles não têm essa formação”.

     Canesin insiste em dizer que “não existe vida sem arte”. E não existe mesmo. Ele lembra que “é o artista que levanta as questões sociais, que revela mistérios, que faz pensar diferente, que acrescenta vivências, que evidencia a vida”. E a profissão deve ser tão respeitada quanto outra qualquer. “O artista estuda muito!”, ressalta Roman. Portanto, evidenciar ou subestimar demais o ator são erros que não podem mais ser cometidos depois que se passa a conhecer mais sobre a profissão, e a melhor saída para isso está em freqüentar mais teatros, que têm sempre tanto a oferecer e que, também por causa da situação precária da educação brasileira, são tão pouco apreciados.

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Com “Orestéia” Folias comemora dez anos de existência

Publicado por gustavoassano em 9/Outubro/2007

Por Gustavo Assano

     Logo à entrada do teatro, um palhaço alerta: “É tragédia”. Não bastasse a forma abrupta com que o aviso é dado, ainda completa: “Morre gente. Não é uma comédia romântica, nem drama, não é Molliére e não tem palco italiano. Tem cenas de violência e de nudez, mas não ao mesmo tempo”. Em seguida coloca a cereja no topo do bolo: “Ah! Mais uma coisa – São três horas e meia de espetáculo”. Não raro, algumas almas desavisadas não sustentam a vontade de assistir. Torcem o nariz e desistem.

     Têm muito que perder, porém, os que assim cedem tão facilmente. Trata-se de algumas das mais antigas tragédias gregas que sobreviveram à evolução histórica de mais de vinte e quatro séculos. A montagem do grupo Folias d’Arte de “Orestéia – O canto do Bode” reúne a trilogia de Ésquilo, “Agamêmnon”, “Coéforas” e “Eumênides”. Com a dramaturgia adaptada por Reinaldo Maia, com direção de Marco Antônio Rodrigues, e maturada coletivamente por um longo processo de criação, o que é colocado em cena não é uma mera reprodução das falas traduzidas da escritura antiga.

     O texto de Ésquilo é abordado de tal forma que, com surpreendente minúcia, todos os traços que apontam para determinada formação cultural helênica sejam repensados e contrastados com a realidade contemporânea da América Latina. No turbilhão que o tema impõe, os 14 atores em cena analisam cinqüenta anos de evolução política, comparando-as com a trajetória mítica de Orestes, o herdeiro vingador da casa dos Atridas.

     O projeto é de uma ambição assumidamente ampla e trabalhosa. O próprio filósofo Paulo Arantes utilizou a “Orestéia” do grupo Folias como exemplo para sustentar a idéia de que, em tese, é muito provável que os teatros de grupo estejam cumprindo com aprofundamentos analíticos que os acadêmicos não estão dando conta.

     O espetáculo também é um rito de formação para o grupo, pois neste ano comemora 10 anos de idade. Desde 1997 os gerenciadores do espaço na Rua Ana Cintra, número 213, são reconhecidos pela ousadia em suas criações e pela atualidade dos debates que sempre alimentam, promovendo palestras e eventos que envolvem discussões sobre os mais variados assuntos. Expõem com lucidez a necessidade de uma linha de pensamento que ambicione mais do que a bilheteria bem-sucedida e aceitação da crítica para a formação do artista.

     Foi lá que nasceu, por exemplo, o Movimento Arte Contra Barbárie, que criticava firmemente o total descaso dos meios institucionais com o desenvolvimento de novas artes, e cujas reivindicações culminaram na formulação da Lei de Fomento ao Teatro, que é o primeiro mecanismo institucional do gênero, servindo de modelo para movimentos similares em todo o país. Em um começo de século quando a barbárie parece reinar de forma desconforme e camaleônica, são de saltar aos olhos as pequenas conquistas que as novas unidades coletivas conseguem alcançar. Com “Orestéia – O canto do bode”, o grupo Folias demonstra que, mesmo do solo asfaltado da Terra Devastada, pequenas flores podem se erguer.

Segue abaixo a entrevista concedida pelo ator e membro do grupo desde sua formação, Dagoberto Feliz.

Gustavo Assano – Como é a relação do Folias com a Lei de Fomento?

Dagoberto Feliz - A gente é contemplado com a lei de fomento, não sei qual edição, com um projeto que inclui a “Orestéia” e o “Cabaré da Santa”, que é o próximo espetáculo, fora publicações, fora o livro. A gente está fomentado até fevereiro, provavelmente.

GA – Como é a relação do grupo com outros grupos teatrais, com a classe teatral como um todo?

DF - Não sei se é só com o Folias, mas antes da lei de Fomento já existia uma proximidade de vários grupos. Vou citar, mas vou esquecer de muitos, mas há alguns grupos que se identificam ideologicamente com o pensamento artístico, não que esses grupos sejam iguais artisticamente. Existem diferenças entre grupos, mas existem muitas proximidades. Entre esses grupos que se aproximam posso citar (Cia. do) Latão, São Jorge (de Variedades), (Grupo) XIX (De Teatro), (Núcleo) Bartolomeu (de Espetáculos), Parlapatões, Moreira, Fraternal, vários. E têm outros, e que na verdade nem são grupos, que nós não nos identificamos nem artisticamente, esteticamente e politicamente. Então você sempre se aproxima de pessoas com quem você se dá bem, e não com quem não se dê bem. Pessoas com quem você não se dá bem, eu pelo menos, quero distância, e o Folias, de certa forma, está próximo de pessoas que pensam teatro, arte especificamente, como parte de uma vida atual, e não como algo idealizado ou utópico.

GA – Gostaria que você discorresse um pouco sobre como anda, ou desanda, o Movimento de Arte Contra a Barbárie.

DF - Eu estou meio afastado, o movimento está meio esvaziado, eu acho. Talvez porque, como as Eumênides, tenham se adaptado, e aí perde a força da fúria, eu acho, é a minha opinião. Embora eu não tenha participado muito diretamente. Como tenho áreas de atuação, essa não é uma das minhas, essa era mais fácil conversar com o Marco Antônio (Rodrigues, diretor), com o (Reinaldo) Maia (dramaturgo), ou com a Patrícia (Barros, atriz). É mais a área deles, que são mais inteirados para a prática da política cultural. Não que eu não saiba, mas eu observo através de informação deles, e muito menos de participação. Mas essa é a minha opinião. Eu acho que por isso vira calminho, e é o que pode vir acontecer com várias outras coisas, inclusive com a lei de fomento.

GA – Qual a importância dos debates que vocês promovem? Há algum critério ao chamar os palestrantes?

DF - A gente tenta ter algum critério. Eu acho que o Folias também, vendo historicamente, ele tem um papel de formação, não de formação acadêmica, mas de fomentar discussões. Pelo Folias já passou, e eu posso afirmar de boca cheia e sem falsa modéstia, muita, mas muita gente e que hoje criou outros grupos. Eu acho que essa é uma das funções primordiais do Folias, se não a maior – A gente ainda não tem o afastamento histórico para determinar o certo disso, mas é sem dúvida uma delas. Nós, por acaso, criamos outras pessoas que vão fazer coisas em outros lugares. É um fato isso. Também não estou batendo no peito dizendo “ó, nós somos formadores!”, mas isso acontece, é um fato, não há como negar. E, é claro, a partir de quando você cria um novo grupo, um novo espaço, um novo pensamento, você o modifica também, você bota suas individualidades, e acho que isso é o que o Folias melhor faz, além do espetáculo, é claro. Então acho que o Movimento de Arte Contra Barbárie esvaziou por acomodação, por displicência das fúrias em vigiar os homens. A “Orestéia” fala muito bem disso que a gente está passando.

GA - Como surgiu o projeto de montar a Orestéia?

DF - É um projeto antigo do Marco Antônio, ele já pensava nisso há muito tempo. Não sei precisar quanto, mas bastante tempo. Na prática a Orestéia nasceu há uns três ou quatro anos atrás, por uma angústia do Marco, que se juntou ao Maia nessa angústia, e que transmitiu essa angústia para outras pessoas. Então, começou mais ou menos uns quatro anos atrás, a preparação real, fora o que se pensava anteriormente.

GA – A peça aborda questões bastante pontuais, é muito precisa sobre onde ela quer chegar. Ela pega um assunto abstrato e politiza a questão, além de abordar temas bastante complexos, como a idéia de pós-modernidade ou de adequação a idéia de sujeito trágico. Percebe-se que essas questões foram maturadas. Como foi o trabalho coletivo com essas questões?

DF - Talvez a Orestéia tenha sido um marco na minha vida. Quando começamos a preparação conversamos com uma professora da EAD (Escola de Artes Dramáticas), e nesse estudo com ela, vimos que para os gregos, o conceito de propriedade não era o mesmo que o nosso. Você só podia ser dono de algo que fosse junto com todos, e não somente de uma pessoa. Esse conceito de propriedade começa exatamente com a discussão que a Orestéia também propõe. Isso estou falando bem grosseiramente. E isso dá um tilt na cabeça da gente. Faz a gente pensar “Mas peraí, como é que é isso?” E te faz rever os teus conceitos. E isso vai para a cena. Claro que, por formação de cada um, cada um tem um momento histórico que é próprio de mudanças, ou não. Mas foi uma tentativa real do elenco de buscar essa proposta da Orestéia. Isso foi e continua sendo. Que bate diferente em cada um do elenco, da parte técnica. O que eu acho legal é que, desde o começo, todos que são da ficha técnica estavam envolvidos. O que significa figurinos, cenário, etc. Não que tenham tido os mesmos tempos, mas estavam todos juntos desde o começo. Isso é algo que tentávamos e nunca tínhamos conseguido. O elenco é quase o mesmo desde o começo, a parte técnica é quase a mesma desde o começo. Por isso que agente queria a Lei de Fomento, porque a gente queria tentar fazer esse processo total, com todos, e manter as pessoas durante um longo tempo, o que é difícil, por várias razões, pela vida, mas foi uma tentativa disso. Dentro da Orestéia, acho que esse é o conceito mais forte, que é o que mais balança a cabeça de todos, e vai pra cena. Além da historia, além da comparação com o teatro de hoje, além da comparação com a América Latina, tudo isso, sem tirar nada. Mas esse conceito, que não é só meu, é nosso, ou não é de ninguém, talvez tenha sido até o motivo de o Marco ter insistido tanto em montar. E o fato dessa comparação com uma história tão antiga provocar essa polêmica até hoje. E não é só entre a gente, é entre todos os intelectuais, não pela nossa montagem, mas pelo próprio texto em si. Então é um texto bom. Rico. Não é um texto chapado onde as pessoas ficam falando que é isso ou aquilo. A nossa opinião sobre essa história está no espetáculo. Claro que temos opiniões a mais, outras comparações, e que não puderam entrar no espetáculo, não couberam. As perguntas que nos fazíamos e que o espetáculo faz é “quem são os nossos deuses atualmente? Existem? São identificáveis ou não?”. Na Grécia antiga estavam todos identificáveis. Hoje não identificamos nossos deuses, ma eles existem.

GA – Houve um consenso entre vocês na criação?

DF - Não sei se é um consenso, mas essa é uma discussão bastante real e atual. Até hoje ficamos discutindo sobre isso.

GA – Há um reflexo dessa linha de pensamento com formulações acadêmicas, e lá também se vê rupturas e divergências sobre estas questões. Também aconteceu isso com vocês durante o processo de montagem?

DF - Claro! Por visões diferentes. Não direi qual foi, mas tem uma cena específica que se resolveu uma semana antes da estréia. Teve no mínimo umas 300 versões, por discussão, por entendimento, por caminhos. Isso até chegar a uma conclusão, a uma escolha. E aí a escolha é da direção. Porque cabe a alguém fazer isso, mas não que antes não se possa discutir, propor cenicamente alguma outra coisa. E eu te digo, uma única cena demorou todo o processo de montagem.

GA – Vocês anteviam todo esse tempo para a montagem?

DF - Não existia essa preocupação. Acho que vão acontecendo coisas, os astros vão se compondo e conspirando, sem parecer esotérico, que eu não sou absolutamente nada, mas isso conspira. E tanto conspira que, voltando àquilo que você perguntou sobre grupos próximos a nós, todos estão fazendo a mesma coisa. E ninguém combinou. Bartolomeu fez uma coisa, o Narradores está montando a orestéia – do Narradores não tinha falado – o Feijão está fazendo quarenta anos de desconstrução de cena teatral brasileira, e tem mais gente que não vou lembrar agora. Então, existe essa discussão que está presente. Sobre a função teatral, a nossa história, pra que a gente serve, se a gente não serve pra nada. A discussão está aí. E ninguém combinou. Também não foi uma jogada de marketing. Ou pelo menos a gente não pensou nisso – Devia ter pensado, somos meio lerdos nisso (risos), mas aconteceu desse jeito. Talvez a gente passe a pensar numa agenda mais programada. Eu acho que é necessário. Mas também é perigoso virar aquela coisa “A gente tem que fazer isso!”…

GA – Você diria que existe uma responsabilidade do fazer artístico por trás dessas relações?

DF - Sim, claro.

GA – Como seria isso?

DF - Eu acho que é uma visão, não é a única, porque eu posso falar não só por mim, mas também pelo Folias, mas se você está fazendo teatro, hoje, neste país, nesta situação política – sim, social– sim, econômica, etc. Hoje, se você não levar em consideração o que está acontecendo hoje, você, na nossa opinião, não está fazendo teatro, está fazendo outra coisa. E existe essa possibilidade de fazer outra coisa que não é teatro. Essas outras coisas não me interessam. Aliás, elas me prejudicam. Aliás, se elas pudessem deixar de existir, eu ficaria muito feliz. Como não tenho esse poder, eu convivo com elas. E aí vai meu lado eumênide. Meu lado fúria iria lá e jogaria uma bomba no teatro que eles fazem. Como eu sou eumênide, tudo bem, eu convivo. Mas se você resolveu fazer teatro, vai e faz. Se você resolveu ser padeiro, você vai e faz um pão. Pode até enganar as pessoas durante um tempo, colocando alguma coisa no lugar, pra lucrar mais, mas aí você não está sendo padeiro, você está sendo ladrão, que também é uma especialidade. Mas se você resolveu ser padeiro, o seu pão tem que ser o melhor. Não falo em venda ou produto, mas em ofício. Tem que ser um ótimo padeiro. É uma questão de ofício, e nisso você tem que ser ético, saber o que pode e não pode fazer. Não como moralista, mas como obrigação do seu ofício. E isso não tem a ver com dinheiro, não tem a ver com venda, não é nada disso, essa discussão não me interessa. E não é que eu não goste de dinheiro. Adoro viajar, adoro comprar livro, adoro ir a bons restaurantes, mas se o meu ofício estiver a serviço disso, aí eu estaria invertido. E se estou invertido, eu não estou fazendo meu ofício. E cumprir com isso me dá uma paz tão grande! Poderia morrer pobre e estaria muito bem. Mas não tenho o que reclamar da vida. Estou até que bem, financeiramente falando. Mas não quero ser milionário. Se não, eu estaria realmente na profissão errada. Ou melhor, não na profissão, mas nos meios errados. Eu teria de fazer de outra forma. Mas aí eu teria de me adaptar a essas formas e eu teria de ser mais eumênide ainda.

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Montagem de drama rodrigueano encerra temporada

Publicado por lumigueres em 6/Outubro/2007

Por Luisa Migueres

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     Terminou no dia 3 de outubro a temporada de oito semanas da montagem de “Senhora dos Afogados”, uma das peças mais famosas e polêmicas de Nelson Rodrigues.

     Proibido pela censura em 1948, durante o primeiro mandato Vargas, o texto foi obrigado a esperar 6 longos anos para finalmente ser levado ao palco pela primeira vez em 1954, com direção de Bibi Ferreira. Logo no dia da estréia, o público dividiu-se entre o amor e o ódio ao espetáculo. Mas quando Nelson Rodrigues percebeu que as vaias se sobrepunham aos aplausos, teve uma de suas mais famosas crises de raiva: subiu ao palco e, com uma ira não costumeira, despejou ofensas sobre seus opositores, chamando-os de burros. Mais tarde Nelson mostraria sua fragilidade diante do ocorrido. No camarim, disse à estreante Nathalia Timberg: “A estrela está no céu. Quem não vê, não vê. Mas ela brilha do mesmo jeito”.

     A família Drummond é o núcleo da peça e tem sua história contada em apenas um longo dia. Enquanto vela-se a menina Clara, que acabara de morrer afogada no mar (seu corpo não fora encontrado), um outro fato correlaciona-se: completam-se 19 anos do assassinato de uma conhecida prostituta no cais da cidade. A história segue estabelecendo laços entre esses dois ocorridos.

     O Teatro do Centro da Terra, em Perdizes, tem a atmosfera perfeita para o drama fúnebre rodrigueano, uma caixa escura e pequena onde estão distribuídas suas 100 poltronas. Do fundo do teatro, após as últimas poltronas, onde são dispostas cadeiras completando uma fileira “extra” em dias mais lotados, o que se via era praticamente uma tela de cinema: um palco de dimensões retangulares acentuadas pelo teto preto rebaixado.

Um elemento bem característico dessa montagem consiste na produção musical. Foram introduzidas canções do cenário popular brasileiro para facilitar a compreensão da trama, segundo a própria direção. O duo, teclado e violoncelo, reproduziam músicas de Chico Buarque, o que dividiu opiniões. Carla Carrara, 19 anos, não aprovou: “Acho Nelson Rodrigues e Chico Buarque, geniais. Separados.” Por outro lado, Lucas Castro, 20 anos, não precisou ser questionado sobre sua opinião: cantou as músicas durante todo o espetáculo.

     A atualidade da montagem fica evidente a partir de detalhes que Nelson Rodrigues ainda não aplicava na primeira encenação da peça. Enquanto a “Senhora dos Afogados” de 54 era simplista em relação ao figurino, essa investiu intensamente numa morbidez tanto das roupas quanto da maquiagem. A palidez e as olheiras foram evidenciadas, intensificando mais ainda a melancolia de cada personagem. Paulo, o único filho da família Drummond e interpretado por Thiago Carreira, com seu tom triste e infantil de falar e seu casaco de veludo, lembra um personagem de Tim Burton. Moema, a filha que resta na casa e elemento principal da história, apesar da trança e do visual blasé, fica longe de ser uma cópia de Vandinha, a primogênita da família Adams. Marcella Piccin, a jovem de 21 anos que representa a filha surpreendente dos Drummond, conversou com o Retinas:

Retinas: Essa é sua primeira peça de Nelson Rodrigues?

Marcella: Sim.

Retinas: E você sabe de toda a polêmica que ela causou quando estreou em 1954, quando Nathália Timberg encenou a primeira Moema?

Marcella: Sei, e isso é uma das coisas mais interessantes dessa peça. O fato de ela ter sido tão comentada. É um prazer poder fazer um espetáculo tão marcante, que já foi encenado por grandes atores e atrizes.

Retinas: O elenco é composto apenas por profissionais?

Marcella: Agora sim, porque eu me profissionalizei (risos). Quando comecei, só tinha feito Macunaíma (Teatro Escola Macunaíma).

Retinas: E quanto a sua personagem, Moema, você acha que a entendeu?

Marcella: Olha, é uma personagem muito forte, muito densa, mas acho que sim. E cada dia a entendo mais e posso mostrar mais dela. Tenho a chance de descarregar um pouco da minha própria ira nela, minha mágoas etc. E, dependendo do dia, ela sai diferente, com algum aspecto mais evidente.

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Projeto de cinema no SESC relembra grandes cineastas

Publicado por inapereira em 25/Setembro/2007

Por Marina Pereira

     O SESC Santana, através de projetos conscientizadores, infantis, teatro, música, entre outros, insere em sua programação mais uma atividade para cinéfilos de todas as idades, trazendo, acima de tudo, a memória de grandes cineastas.

     O projeto chamado “Última chance em 35”, acontece todos os meses na unidade, cada mês com um diretor diferente através de quatro coletâneas de seus filmes que passam a cada terça-feira do mês. O objetivo do projeto, segundo Cristiano do setor de programação do SESC, é uma interação de toda a comunidade no sentido de integrar cinéfilos, pessoas que já conheciam os filmes, pessoas interessadas em conhecer e até crianças curiosas por seus temas de uma forma bastante democrática: gratuitamente.

A película de 35mm

     Criada por George Eastman em 1889 para a fotografia , a película de 35mm logo passou a ser utilizada em experiências cinematográficas. Os primeiros filmes rodados pelos irmãos Lumiére, em 1895, foram realizados em 35 mm. Mais tarde, em 1927, o filme foi adaptado para receber som óptico. Mesmo atualmente com o avanço da tecnologia digital, o formato 35 mm continua sendo o mais utilizado no cinema do mundo inteiro, tanto para filmagem quanto para projeção.

    Mas para onde vão todos estes rolos com tantos filmes maravilhosos depois que saem de cartaz? Quando terminam os contratos de direitos de exibição, que duram aproximadamente cinco anos, entre as distribuidoras e os grandes estúdios, estes filmes costumam ser incinerados ou adquiridos por colecionadores. Antes que isto ocorra, o projeto “Última Chance em 35″ oferece uma oportunidade derradeira a cinéfilos e ao público em geral de assistirem grandes produções em ciclos de filmes de diretores consagrados em produções recentes.

     Com o avanço das produções digitais, as charmosas exibições em 35 mm estão cada dia mais sujeitas à extinção. Por isso, o projeto do SESC Santana tem como objetivo principal resgatar essas sessões, sempre com foco no cinema de arte, até mesmo para tirar de foco os filmes Hollywoodianos, vistos como base de cinema para muitas pessoas. O cinema não é apenas um meio de lazer e entretenimento, mas um veículo de formação e aprimoramento cultural.

Preparação

     Para definir as obras que farão parte dos ciclos, a equipe de programação do SESC Santana faz uma pesquisa abrangente entre as dezenas de distribuidores, cinematecas e colecionadores sobre a disponibilidade de cópias. Depois desse levantamento, outros fatores norteiam a programação, como a importância da obra e do autor no contexto mundial. Diretores consagrados, revelações, sucessos de crítica, bilheteria e temas relevantes também são fatores decisivos na hora da escolha. Em alguns casos, há os ciclos que compõem uma temática, ou seja, fazem parte de um projeto cultural maior, o qual não só se abrange o cinema, mas também teatro, dança, música, contações de histórias, etc.

     Dentre tantas pessoas tocadas pelos filmes, surgiu o depoimento de Nivaldo, ator e grande admirador de Ingmar Bergman, um dos grandes cineastas homenageados no mês de Setembro: “Os filmes de Bergman sempre me impressionam pela intimidade dos dramas vividos por suas personagens. Sempre recorro ao Bergman quando preciso de inspiração para fazer alguma cena ou pesquisa. Seus filmes sugerem um monte de interpretações e sensações diferentes a cada vez que você assiste”.

     Antes de Ingmar Bergman, já passaram pelo ciclo de cinema da unidade Santana, Woody Allen, Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar e Luchino Visconti, e agora no mês de Outubro François Ozon trazendo públicos de variados perfis, mas com uma vontade em comum: o cinema.

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Exposição amplia olhares

Publicado por Luana Lila em 23/Setembro/2007

Por Luana Lila

     De 11 de setembro à 6 de outubro, a mostra A caminho do Mar, expõe uma série de imagens do renomado fotógrafo Bob Wolfenson  sobre Cubatão na galeria Millan. Reúne 16 imagens da cidade, famosa por sua capacidade industrial e pela poluição que produz.

     É inusitado utilizar um local tão esteticamente degradado como objeto fotográfico, mas Bob Wolfenson tem explicações claras para isso.  Desde a infância passava pela região, à caminho da praia, e sempre a observou como um marco na transição entre a cidade e natureza.

     A exposição foi elogiadíssima por jornalistas e intelectuais, principalmente por fazer uso de uma moderna tecnologia. 

     Parte das fotos estão impressas com jatos de tinta em placas de policarbonato, uma espécie de acrílico, enquanto as outras foram transformadas em gigantescas caixas de luz. Essa forma de impressão remete à pintura, em especial por lembrar a técnica do afresco.

     A fotografia, originalmente, nasceu como representação objetiva da realidade, mas a exposição  coloca o observador em reflexão sobre as formas, texturas e cores apresentadas. Também provoca uma contradição das percepções, afinal, as fábricas e a fumaça acabam proporcionando belas imagens.

     A galeria Millan está localizada na Rua Fradique Coutinho, 1360, Vila Madalena.    

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Simplicidade é cenário para a “Stand-up Comedy”

Publicado por nathynhan em 18/Setembro/2007

por Nathália Nhan                    

                                Logotipo do Clube da Comédia
 

    Um microfone, um pedestal, um banquinho e um foco de luz sobre um único ator em um palco é basicamente tudo o que se precisa para uma comédia stand-up. Basicamente. Além do talento nato para a comédia, o ator — claro — precisa ter uma criatividade e uma perspicácia incríveis. Diferente da comédia clássica, em que os artistas estão geralmente caracterizados, travestindo um personagem, ou contando piadas, a stand-up comedy destaca-se por utilizar fatos cotidianos como tema para as apresentações, fazendo com que o público se identifique ou, pelo menos, conheça alguém que já tenha passado por uma situação parecida com a citada pelo ator. Este, aliás, é um dos maiores motivos da grande adesão do público.

     Iniciada nos Estados Unidos, a comédia stand-up fez muito sucesso com nomes como Fred Allen, Jerry Seinfield e Chris Rock. No Brasil, os seus grandes precursores foram Zé Vasconcelos e Renato Côrte Real, sendo posteriormente seguida, também, por Chico Anysio e Jô Soares. Hoje, ela tem o youtube, site onde vídeos de algumas apresentações são postados, como um de seus principais aliados, mas acima de tudo, é o boca-a-boca que faz esse estilo alcançar tanta notoriedade. Recentemente, o estilo tem sido consagrado por grupos que se dedicam inteiramente a ele como o Clube da Comédia e o Comédia Ao Vivo, em São Paulo, e o Comédia em Pé, no Rio de Janeiro.

O Clube da Comédia Stand-up

     O Clube da Comédia Stand-up surgiu em 2005, a partir de um trabalho que Marcelo Mansfield, Rafinha Bastos e Marcela Leal fizeram juntos em 2004 chamado “Mondo Cane”, que também incluía stand-up comedy. Sua primeira formação tinha, além de Marcelo, Rafinha e Marcela, Marcio Ribeiro e Henrique Pantarotto, mais tarde contou com Diogo Portugal, e hoje, é integrado por Danilo Gentili e Oscar Filho, além dos três idealizadores iniciais do projeto.

     Em agosto de 2006, o grupo lançou o seu primeiro CD, que também representava o primeiro CD feito exclusivamente com Stand-up Comedy no Brasil.

A Entrevista

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Oscar Filho, integrante do Clube da Comédia

     Como informa o site do Clube da Comédia, Oscar Filho, 29 anos, foi indicado como melhor ator no prêmio Coca-cola Femsa de Teatro 2004 com o espetáculo “A Matéria dos Sonhos” de Fábio Torres. É formado pelo INDAC – Instituto de Artes e Ciências. Esteve em montagens como “As Bruxas de Salém” – Arthur Miller, “A Importância de ser fiel” – Oscar Wilde, “Toda Nudez Será Castigada” e “A Serpente” – Nelson Rodrigues, entre outros. Em comédia, participou durante 3 anos do grupo “OsCretinos” fazendo várias participações no espetáculo “Terça Insana”.

     Muito simpático e divertido, Oscar, que integra, atualmente, o Clube da Comédia Stand-up, e é um dos melhores comediantes do estilo no Brasill, me cedeu uma entrevista.

NN – Por que os personagens do Zorra Total não são tão engraçados quanto na comédia stand-up, sendo que há atores do gênero no elenco também?

OF – Eu achava isso também. Mas por exemplo, o Fernando Caruso e o Fabio Porchat. Você já viu o quadro dele [Porchat] no Zorra Total? Então, ele faz o quadro do “Chato”, e eu gostei muito. Eu acho que vai de gosto. Uma coisa que é clara para mim é que quando você vai para a televisão você fica limitado. Quando eu faço, é claro que penso no público, mas primeiro eu penso em mim, no que eu acho engraçado e em como eu quero falar daquilo que eu acho engraçado, porque afinal de contas, é uma comunicação que eu faço. Se o público achar engraçado, melhor, mas se não achar, eu tenho que dar um jeito nisso. Já na televisão não. Tem uma câmera, tem o diretor, tem uma série de coisas que separam o telespectador do que eu estou fazendo, então há um caminho muito longo, e às vezes há essa impressão de que não é engraçado. E também não dá para enfiar o pé na jaca, para falar palavrão, não tem essa espontaneidade.

NN – Você acha que o stand-up funcionaria na TV como funciona ao vivo?

OF – Não sei, eu posso estar completamente enganado. A maior amostra disso é o Seinfield. Ele fazia bem no comecinho um minuto de stand-up, para catapultar o resto do seriado. Mas sabe o que eu acho? Eu acho que é pouco dinâmico para a TV. Ela tem várias possibilidades de edição, de direção, de luz, enfim, já no palco não tem. Se eu errar uma piada ninguém vai vir me cortar, então fica mais espontâneo, e na televisão tem o corte. Por exemplo, a piada em que eu falo que tenho medo da minha sogra porque ela tem uma verruga preta, a câmera cortaria na verruga dela, então eu tenho que dar essa imagem para as pessoas apenas descrevendo. A câmera já cortaria para eu fazendo uma cara de “ah, meu Deus do céu!”, deixaria mais ágil, mais rápido. Por isso que eu acho que ficaria estranho.

NN – Em relação a essa liberdade sobre os temas, vocês recebem algum tipo de reclamação das personagens que são alvo deles? O Rafinha Bastos, por exemplo, tem algumas sátiras envolvendo a Xuxa, ela nunca se manifestou?

OF – Eu tomo o maior cuidado com isso. Primeiro porque sabe aquela frase “Não fale dos outros o que não gostaria que falassem de você”? É mais ou menos por aí. Também porque às vezes é algo muito pessoal, uma opinião que muitas vezes o público pode não vai compartilhar, então eu prefiro partir desse caminho. Têm pessoas com trabalhos que eu não gosto, mas que você pode gostar, então eu acho que não vai ficar legal para uma piada. A respeito do Rafinha, eu não sei se teve algum problema com ele. Uma vez eu fiz uma sobre o Chimbinha (integrante da banda Calypso) que era: “Por que as pessoas vão querer um autógrafo do Chimbinha?” (risos). Tem a ver com isso.

NN - Há quanto tempo você trabalha com comédia?

OF – Acho que desde que eu nasci (risos)! Minha mãe fala que eu não nasci chorando, que eu nasci rindo (risos). Sabe aquele que sempre foi o engraçadinho da sala? Eu era assim! Tem uma história que eu achei muito engraçada. Eu sou muito fã do Jim Carrey, e estava lendo a biografia dele quando vi que tinha muitas coisas bem parecidas com a minha. Na escola, uma vez, eu estava infernizando tanto, que a professora falou: “Para um pouco! Se você parar um pouco eu te dou cinco minutos no final da aula para você fazer o que você quiser!”, e com o Jim Carrey aconteceu a mesma coisa, só que o tempo dele foi maior, acho que uns 15 minutos.

NN – E com stand-up comedy, você está há quanto tempo?

OF - Faz dois anos e meio.

NN – Quem iniciou o gênero no Brasil?

OF - A gente já tentou estudar isso com dados, para não falar besteira. Mas a primeira pessoa que fez de verdade foi o Zé Vasconcelos. Pode ser que alguém tenha feito antes, mas que a gente saiba não. O Zé Vasconcelos tinha um show que se chamava “Eu sou o espetáculo” em que a maior parte das piadas era sobre a vida. Na verdade, não era piada exatamente, porque, qual é a diferença do stand-up para uma piada? A piada começa “eu tenho um tio que é português”, ou melhor, “eu tenho um tio que é português, outro alemão, um argentino, outro que era…” mentira, tudo mentira (risos)! Já no stand-up é “eu estava com a minha namorada”, o que é mais possível. Talvez seja uma piada inventada, mas é mais possível de acontecer. É possível que eu vá a uma balada e encontre uma menina que seja caolha, feia e que eu ache esquisito, é possível eu encontrar uma menina que cheire mal ou ela me achar um feio. Enfim, depois do Zé Vasconcelos, os próximos que vieram foram o Chico Anísio, o Jô Soares. Mas respondendo à sua pergunta, talvez tenha começado na década de 50 com o Zé Vasconcelos. E agora, com força, eu acho que foi a gente do Clube da Comédia. O Marcelo [Mansfield] em 2004, junto com a Marcela [Leal] e o Rafinha [Bastos] me chamaram, chamaram o Marcio Ribeiro e o Henrique Pantarotto e começaram a fazer a comédia stand-up, em abriu de 2005.

NN – Foi quando começou o clube da comédia?

OF – Isso mesmo. A gente começou a fazer para uns amigos, uns 20, 30, mas aí a coisa começou a ficar séria. Daí a gente fez um lançamento e começou o Clube da Comédia.

NN – E no âmbito internacional? O mais conhecido foi o Seinfield. Ele é a maior influência no gênero?

OF - Então, por que é que a maior referência hoje é o Seinfield? Porque, assim como o circo é para a gente, o stand-up é para os americanos. Tinha stand-up pra caramba, até que isso deu uma amornada, ficou em banho-maria durante um bom tempo, uns 20 anos eu acho, talvez menos. E eram poucos representantes muito conhecidos como o Ed Murphy, o Steve Martin, porque ainda estava tendo bastante mas não era tão grande como já tinha sido. O que o Seinfield fez? Ele teve uma ótima sacada. Ele era um comediante stand-up e levou o gênero para um seriado de TV que tinha a ver com esse pensamento, e foi a maior série americana. O último capítulo do Friends foi assistido por 90 milhões de pessoas, já o do Seinfield por 150 milhões de pessoas. Então ele deu um “boom” que fez com que todo mundo quisesse fazer esse estilo também. Hoje em dia, se você for perguntar para a maioria dos caras que estão começando talvez seja o Seinfield a maior influência porque ele é um cara contemporâneo, que começou há pouco tempo.

NN – Você acha que o youtube é um dos grandes responsáveis pelo sucesso do Clube da Comédia stand-up?

OF - Nossa! É, e não é. É por um lado porque, se o cara está em Rondônia, em Roraima, talvez não possa vir assistir à gente aqui em São Paulo, então ele vê pelo youtube, fica louco e aí vai procurando mais coisas. Mas tem a boca-a-boca também que é muito legal. A gente vê as pessoas saindo daqui falando “pô, vai lá ver”, e isso e o que mais traz gente para assistir. Em contrapartida, uma coisa que o youtube facilita é, por exemplo, você que está lá na frente do computador e vê um vídeo e aí chama a sua amiga que está do lado para ver, “Olha que legal. Vamos lá no domingo?”, que é melhor do que você tentar contar a piada, e talvez você nem conte do meu jeito, talvez a pessoa nem ache tanta graça assim. Ela tem que ver, né? Portanto, isso com certeza ajudou.

NN – A platéia do “Em pé sem Cabeça”, projeto de humor stand-up comandado pelo Rafinha Bastos no Teatro Folha, já se anima apenas ao chegar ao local da apresentação. Eles sempre são receptivos assim?

OF - O que acontece no Teatro Folha é o seguinte. O Isser [Korich], que é o cara que manda e que cuida da parte artística do teatro, é muito engajado. Ele sempre quer fazer coisas novas, dinâmicas. Acho que o melhor exemplo disso é o “Nunca Se Sábado”, mas antes já teve o “Coquetel Clown” também, então ele tem um público que já saca que o Folha sempre tem apresentações bacanas de humor e, portanto, vão ávidos por essas boas apresentações humorísticas. As pessoas já estão condicionadas a saber que sempre terão coisas muito boas para assistir lá. Eu não fui me apresentar ainda, apesar de o Rafinha já ter me convidado. Talvez eu vá no final de setembro. Aqui, muita gente já viu no youtube, já ficou sabendo pelo boca-a-boca, então também chega nessa energia, não é desavisado. Se você perguntar para a maioria das pessoas aqui, elas vão te responder que ficaram sabendo por um amigo, pela família, ninguém vai falar “ah, estava passando por aqui e entrei pra ver qual é”.

NN – Como funciona a escolha do repertório?

OF - Da vida, né? Você tem que estar presente na vida para tirar suco de onde não tem, sabe? Por exemplo, uma vez a revista Bravo fez uma entrevista com a gente e eu achei muito legal a maneira como eles colocaram o stand-up. Eles colocaram que é como se nós conseguíssemos ver diferentes tons de branco no Alasca, e é isso. Às vezes uma coisa passa despercebida para você, mas para mim não, porque eu já fico com um olhar diferente. O humor está sempre para sacanear, sempre atento para ver as coisas. Assim como você está fazendo a sua entrevista comigo agora, talvez você tenha o seu roteiro, mas talvez eu fale alguma coisa que te lembre outra, e você precisa estar esperta para poder voltar para o que você tinha antes para falar.

NN – Dá para se manter só fazendo stand-up comedy?

OF - Atualmente, sim. Só daqui não dá, mas tem os eventos que surgem quando um cara vem assistir e fala “Ah, eu quero levar esse show para o meu emprego”, ou, “Ah, eu tenho um prêmio para entregar, mas eu não quero o teu show e sim um cara que apresente de uma forma um pouco mais versátil, alegre, diferente de um mestre de cerimônia sisudo”. Esses eventos ajudam na renda, sim. Que legal! Eu fico muito feliz com isso.

NN – Você tem outros projetos, além do Clube da Comédia?

OF - Já tive. Atualmente, eu estou mais ou menos, mas como não está nada certo eu prefiro não falar, porque vai que não rola, né?

     Quem quiser conferir o trabalho de Oscar Filho, pode assistir uma das três apresentações semanais do Clube da Comédia no Bleecker Street, duas aos domingos, às 18h e às 21h, e uma às segundas, às 21h.

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