Por Luana Lila
Em meio às bombas e à pressão ideológica gerada pelos governos envolvidos, os jornalistas devem se desdobrar para apreender a realidade de modo imparcial.
O jornalista português Carlos Fino ficou mundialmente conhecido por ter sido o primeiro a transmitir, em tempo real, o início da guerra do Iraque, em 2003. Na época era enviado especial a Bagdá pela emissora RTP (Rádio e Televisão Portuguesa).
Com uma vasta experiência na cobertura de conflitos, Fino, que registrou suas atividades no livro A Guerra ao Vivo, concedeu, no dia 13 de outubro de 2007, uma entrevista coletiva aos estudantes do curso Jornalismo em Situação de Conflito Armado, módulo do projeto Repórter do Futuro, promovido pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
Fino nasceu no final da década de 40, em Lisboa. Durante o regime ditatorial Salazarista em Portugal exilou-se em Moscou. Mais tarde, em 1976, começou sua carreira jornalística no país que lhe servira de abrigo, local onde acompanhou os conflitos provocados pelo fim do regime soviético. Foi também correspondente em Bruxelas e Washington e, posteriormente, cobriu as desavenças no Oriente Médio, as guerras do Golfo, do Afeganistão e do Iraque. Em 2004 deixou a RTP, emissora para qual trabalhou mais de 20 anos, para assumir o cargo de conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília.
Além de relatar momentos difíceis de sua vida de repórter, principalmente no Iraque, fez uma importante reflexão sobre o papel e a influência do jornalismo nas guerras.
Fino afirma que o jornalismo é uma profissão de fronteira entre a propaganda e a informação. Essa linha tênue que separa o informe imparcial do manipulado pode ser observado no âmbito de atuação dos jornalistas que estiveram ou estão na Guerra do Iraque.
Para atuar no país os correspondentes deveriam obter permissão de uma das partes em conflito. Fino estava credenciado pelo regime de Saddam Hussein, portanto sabia que seu motorista e tradutor eram informantes do governo. Além disso, o Ministério de Comunicação do Iraque era quem estabelecia os locais a serem visitados, sempre lugares onde havia ocorrido bombardeios.
Sendo assim, o repórter deveria se mobilizar para obter informações de outras fontes, ao mesmo tempo em que sofria restrições por estar tutelado pelo regime ditatorial iraquiano. Um outro modo de assegurar a permanência no país era por meio do acompanhamento das tropas norte-americanas, o que também implica em restrições e limites.
Por isso, Fino acredita ser ideal o implemento de um estatuto para a imprensa em situações de conflito armado, de forma a garantir proteção e imunidade e permitir que o jornalista atue de forma autônoma.
Porém isso seria quase impossível, pois a informação se tornou parte da guerra, influenciando seu curso na medida em que pode ser manipulada e omitida. Além disso, Fino sabe que o jornalista não é neutro, é portador dos valores consensuais de uma época, relata um fato de acordo com seus conceitos agregados.
Mesmo que não seja verdadeiramente neutro, ou esteja embutido em um dos lados, faz parte da ética jornalística não se deixar manipular, ouvir vítimas e agressores, contextualizar as ações, manter-se eqüidistante. Porém, estando em contato mais intenso com uma das partes, um jornalista pode, eventualmente, favorecê-la. Isso gera um empecilho quanto ao implemento de um estatuto de imunidade, afinal, um jornalista que toma partido acaba agindo a favor de um dos lados.
Uma outra forma que Fino aponta para garantir a ideal imunidade poderia ser o uso de coletes à prova de balas, com o distintivo da imprensa. Mas também é verdade que muitas vezes os jornalistas são alvos.
Durante a Guerra do Iraque, por exemplo, um tanque norte-americano atirou contra o hotel onde estavam hospedados os correspondentes internacionais, provavelmente como forma de intimidação, matando dois jornalistas. Nesse dia, Fino teve que esperar quatro longos minutos, enquanto a emissora RTP transmitia comerciais, para denunciar o que estava ocorrendo.
Ocorre que jornalistas sofrem restrições por estarem embutidos em uma das partes, mas esse é o preço que devem pagar para conseguir ter acesso à informação. Mesmo assim, é possível que os próprios meios de comunicação sejam capazes de ampliar a sua cobertura.
Segundo Fino, a emissora RTP oferecia vários ângulos de visão durante a Guerra do Iraque. Havia diferentes equipes na fronteira do Iraque com a Turquia e com a Jordânia, acompanhando as tropas norte-americanas e na capital Bagdá. Claro que nem todos os meios de comunicação têm esse cuidado, muitas emissoras norte-americanas faziam propaganda de apoio à guerra, muitas vezes omitindo fatos inconvenientes para eles.
Quanto a sua experiência pessoal, afirma que quando foi reportar um conflito pela primeira vez era jovem e completamente despreparado. Acha ideal que um jornalista que cubra uma guerra tenha noções de primeiros socorros e conheça os Direitos Humanitários. Explica que o meio de comunicação oferece a oportunidade, paga as despesas, mas os riscos são por conta do jornalista, que, inclusive, não ganha mais por ser correspondente em um conflito.
Perguntado sobre como lida com o medo explica que, por ser mais velho, está mais preparado para enfrentar a morte. Mesmo que o medo sempre o tenha acompanhado, à medida que participa dos conflitos ganha cada vez mais coragem. Mas procura também não se familiarizar demais com a violência que presencia para não correr o risco de se tornar desumano.
Sobre como é sua relação com os colegas diz que, entre os jornalistas, as afinidades geram aproximações. Por exemplo, é comum que norte-americanos se aproximem mais dos ingleses e latinos aproximem-se entre si. Reconhece que há troca de informação entre eles, mas nunca se revela tudo. Para Fino, a maneira mais inteligente de ser egoísta é ser solidário, afinal os ventos sempre podem mudar, quem oferece ajuda pode precisar dela mais tarde.
Quanto ao furo que deu na Guerra do Iraque afirma que, hoje em dia, a tecnologia é capaz de superar a potência dos meios de comunicação. Através do videofone, Fino foi capaz de reportar o início da guerra antes mesmo de grandes emissoras, como a CNN. Conta que isso ocorreu por estar em busca de informações até aquele momento e não ter dormido naquela noite. O que ouviu na época de seus superiores foi: como está acontecendo se a CNN não transmitiu ainda?
Em contato com o Brasil há cerca de três anos, o repórter pôde fazer um rápido balanço da cobertura da imprensa brasileira sobre a violência que ocorre no país. Acusa não ver uma abordagem sistemática do problema, é como se a solução coubesse apenas à polícia. Os conflitos são sempre retratados a partir do ponto de vista das autoridades. Quanto às notícias internacionais afirma que, com a globalização, os meios de comunicação tendem a divulgar informação padronizada, mas é importante que cada país cultive o seu ponto de vista.
As reflexões de Fino sobre a atuação do jornalista, os perigos aos quais está sujeito e as limitações às quais pode se submeter, têm importância relevante para o conhecimento das condições de seu trabalho, podendo afetar na cobertura, bem como na informação que chega ao público.
