Retinas

Laboratório de mídia online da PUC-SP – Alunos do 1º ano – Turma MC – 2007

Arquivo da categoria ‘Ponto de Vista’

Movimento Cansei afirma não ter propostas

Publicado por gustavoassano em 14/Outubro/2007

Por Gustavo Assano

 

      Os novos movimentos de moralização política refletem muito bem o aspecto da mediação dos poderes institucionais vigentes. Assim como as camadas de verniz sobre as obras feitas com madeira, vendidas nas mais renomadas galerias de alta cultura, eles tentam construir artificialmente a aura perdida das obras antigas, e com ela possibilitariam o contato com um último resquício de humanidade que a civilização poderia conceder. Ignoram (ou desacreditam), porém, que o que agora chamam de aura é mero fetiche, e a superação que dignificaria o absoluto é agora uma sucessão de catarses que produzem um gozo contínuo e vazio.

 

     O principal mote do Movimento Cansei, veiculado amplamente por toda mídia e com um sem número de adeptos super-estrelas e muito respeitados pelas massas, é que “O marasmo hoje é do cidadão brasileiro, não é do governo”, como afirma Paulo Zottolo, empresário da Phillips e um dos fundadores do movimento. Também diz que não há propostas por trás do movimento, pois “se tivesse proposta seria um movimento partidário, como não é partidário não pode ter proposta”. A contestação não se firma por uma perspectiva que afirme algum tipo de negação, mas pelo mero ato de contestar.

 

     Assim como a catarse produzida pela arte reificada que cria uma consciência cuja base de unidade primordial é a alienação, a articulação política também se torna procedente apenas através da supressão do esqueleto do que compõe sua formação concreta. Afinal, o Cansei, antes de tudo, é a reivindicação de uma parte da sociedade civil organizada cumprindo com seu direito constitucional de criticar as ações daqueles que estão em pleno exercício do poder. Estão cansados de violência, corrupção, criminalidade, da má administração do Poder Executivo, do mau funcionamento dos serviços públicos para o cidadão contribuinte, etc. Propõem, então, uma afirmação contrária a estas generalizações abstratas com outra abstração: A indignação apartidária.

 

     O grande problema é que a forma como este poder é concebido também é através da alienação. Os elementos que formam a autoridade governamental (ou seja, as formações administrativas do poder) estão diluídos em milhares de ramificações de cargos e dispositivos institucionais cuja apreensão de sua totalidade jamais é possível, justamente porque sua completude nunca é visível. Este é o jugo fundamental pelo qual a burocracia se mantém intacta. A afirmação concreta do que chamam de poder, e, por conseqüência, também as suas críticas objetivas, são fetiches.

 

      A fala do cidadão indignado, que se preocupa em respeitar as mediações desta ordem burocrática, mesmo composta da forma mais eloqüente, ao ser bradada contra os que não cumpriram com suas funções administrativas devidamente, faz o mesmo que uma criança tentando socar o ar que a cerca.

 

      O Movimento Cansei, representante máximo desta atitude infantil na atualidade, cumpre seu papel de forma magnífica. Os membros do movimento usam a impotência decorrente de seguir a ordem vigente, elemento inevitável ao manter os termos no mesmo plano da ordem burocrática, como parte de seu discurso. Um de seus slogans é “Cansei de não fazer nada”. Assim como Zottolo afirma que o marasmo está na população, e não no governo, os protestantes são francamente complacentes com a ordem burocrática.

 

      Seria, contudo, muita ingenuidade encarar estes discursos com leviandade ou mero escárnio. Os socos ao ar, por mais inofensivos que sejam na ordem civil, tornam-se aterradores quando atingem a totalidade da ordem burocrática. É possível que algum colega de cela tenha tirado sarro de Hitler enquanto ele escrevia “Mein Kampf”.

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Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em estado de choque

Publicado por gustavoassano em 11/Setembro/2007

por Gustavo Assano

      O dia 21 de Agosto, uma terça-feira, foi escolhido por manifestantes de órgãos como UNE, CUT, MST, UBES, Educafro, entre outras quarenta entidades, como data para um ato reivindicatório em São Paulo (o ato também acontecia em outras cinco capitais brasileiras). O local selecionado foi o pátio interno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, contando até mesmo com a participação do cantor Tom Zé. Protestavam pela “democratização do acesso às universidades públicas, a reversão de seu acelerado processo de sucateamento, pelo ensino público, universal, gratuito, criativo e de qualidade”, como consta o procurador José Damião de Lima Trindade em seu comentário sobre o episódio. A ocupação foi planejada para que durasse exatas vinte e quatro horas, sendo iniciada às 17h do dia 21 e finda às 17h do dia 22. Como já se sabe, não foi assim que os acontecimentos tomaram forma.

      Por volta das 2h30 da madrugada da quarta-feira, dia 22, policiais da tropa de choque da Polícia Militar invadiram a faculdade, retiraram os cerca de 400 manifestantes do prédio e os obrigaram a ficar sentados no chão. A cena é, além de fatídica, familiar. No dia seguinte, integrantes do movimento da ocupação promoviam novo ato de manifestação em repúdio à ação da PM. Colavam cartazes que se referiam aos anos de chumbo da Ditadura Militar.

      Tal alusão foi fortemente criticada como estapafúrdia e sem nexo com o tempo em que vivemos. Grandes jornais chegaram a rotular os que fizeram esta relação de estarem presos a um passado cuja realidade não é mais a mesma. De fato, os tempos são outros. A situação consumada, porém, não impede que a comparação com outros momentos em que o cassetete falou mais alto que palavras tenha incisiva coerência.

      A última vez que se teve notícia da Polícia Militar invadindo a renomada Faculdade de Direito do Largo de São Francisco foi justamente em 1968, ano que abriu as portas da linha dura, quando a 13 de Dezembro era promulgado o Ato Institucional nº. 5. Pela primeira vez desde 1937, e pela quinta vez na história do Brasil, o Congresso era fechado por tempo indeterminado. Era atendida a reivindicação da máquina repressiva da continuidade do estado de exceção.

      Com minúcia jurídica, estava arquitetado o cenário para os crimes da ditadura. Esmagando qualquer forma de argumento concreto que soe contra a ordem implementada, a ditadura colocou diante do horizonte de expectativas de uma população, ainda que de classe média estudantil, e que já tinha “idéias fora do lugar”, a necessidade da radicalização, da mudança que negue a ordem vigente.

Era de Aquarius

      O movimento estudantil, que nesta época cresceu e organizou-se de forma única, constituía sua unidade coletiva pelo monstro comum a ser enfrentado. Era a tal Era de Aquarius. Como aponta Elio Gaspari em seu livro A ditadura envergonhada, “centenas de milhões de jovens nascidos após a guerra começaram a deixar crescer simultaneamente cabelos e idéias. Neles afloraram sentimentos libertários que tinham brotado havia décadas nos bairros intelectuais e nos redutos da marginalidade boêmia de todo o mundo”. Contra esta tendência havia um tradicionalismo conservador que se fez caricato assim que as “modas libertárias” pegaram.

      No Brasil, o discurso que se opunha aos jovens idealistas balizou a resistência política e a organização estudantil. A ditadura era a feição objetiva do inimigo a ser derrotado. Quarenta anos após este período, o século XXI desponta com a bizarrice que é típica de qualquer ordem que se assenta sobre a inércia da própria condição. O discurso eloqüentemente libertário, que aqueceu corações e alcançou estrondosos sucessos há uma geração atrás, é facilmente adquirido em qualquer brechó de esquina. Foi uma gloriosa onda que passou, ressoando hoje no marasmo melancólico de um hit resgatado da categoria “clássicos” das rádios mais populares, ou nas categorias “retro” dos desfiles de moda.

      A mudança soa, de fato, drástica, e estes velhos discursos parecem dizer pouco a respeito da era atual. A menor das desobediências cívicas, porém, aciona o gatilho que comprime os gritos de manifestantes com a mesma eficiência de três décadas atrás. Além das músicas, dos tons dos discursos e das roupas, que tiveram óbvias variações ao longo dos anos, o que será que também mudou?

Qual mudança?

      No dia 22, a tropa de choque atendeu ao chamado do diretor João Grandino Rodas, que pediu a desocupação do prédio. A ação do diretor foi recebida com aplausos pela maioria dos estudantes. Eram comuns os mais variados comentários de repúdio à ocupação. Os manifestantes eram referidos como “vagabundos”, “marginais” e daí para os termos mais chulos.

      Os discursos eram aparentemente norteados por uma idéia de preservação do estabelecimento ocupado, uma preocupação em evitar qualquer forma de depredação. No dia seguinte, porém, o diretor cedeu a Sala Nobre da Faculdade para os alunos deliberarem sobre o ocorrido. É o local onde estão expostos quadros e artigos valiosos, e ninguém aparentou preocupar-se com a possibilidade de qualquer desavença com desfecho bruto pudesse ocorrer lá dentro. Esta preocupação foi, portanto, um tanto quanto mal-sustentada estrategicamente falando.

      O ódio que este acontecimento levantou entre os alunos remete a outros episódios, como o que resultou no ocorrido em 2004, quando no dia 23 de Novembro uma manifestação de entidades estudantis e do movimento negro acabou em cenas de agressões. A civilidade belamente pregada em aulas de direitos humanos é lentamente expungida quando a concorrência, critério máximo de metrificação do esforço despendido em conquistas valorizadas pela tradição, é atentada.

     De fato, as mudanças foram drásticas. Mas é interessante perceber o que há de diferente naquilo que se mostra mais semelhante a outros tempos. A repressão, tão condenada nos cânticos bradados por uma juventude que se afirmava contra-corrente, não é mais encontrada num aparelho repressivo e centralizado de um Estado de Exceção para objetivar-se. Nesta geração, a aparelhagem está internalizada em seu frescor, tendo a configuração social vigente como norma para suas ambições e gritos de guerra. A violência de outros tempos não se sobrepõe a uma ordem cível, pois está imiscuída em sua forma de viver. Tomam, desta forma, a exceção como regra de seu estado protegido com unhas e dentes.

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O Patriotismo às avessas dos Jogos Panamericanos

Publicado por gabrielamoncau em 6/Setembro/2007

Por Gabriela L Moncau

     O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, desde que assumiu a direção, em vez de incentivar a inclusão social através do esporte, se preocupou em transformar aquela entidade numa mera empresa organizadora de eventos esportivos com o intuito de dar lucro e projetar a sua figura nacional e internacionalmente.

     Além disso, há algumas informações curiosas que foram publicadas em relação à organização dos Jogos Panamericanos.

     Em primeiro lugar, não houve licitação para a contratação da segurança do Pan, com o argumento de que era assunto sigiloso e não poderia ser exposto. Além disso, a empresa que foi contratada anunciou um mês antes do Pan que não seria possível fazer tudo que tinha que ser feito.

     Em segundo lugar, a agência de turismo que presta serviço ao COB é de Cristina Lowndes, grande amiga de Nuzman, em uma licitação até hoje contestada. A empresa que organizou as festas de abertura e encerramento, também sem licitação, é ligada ao Alexandre Accioly, sócio do diretor do COB Marcus Vinicius Freire. É uma grande festa para um grupo pequeno.

     A licitação é promovida por um organismo chamado CO-Rio, que organiza as empresas e organizações ligadas ao Pan (a prefeitura, o Ministério do Esporte, o governo do Estado). É uma empresa privada e presidida por Carlos Arthur Nuzman. Ele é presidente da CO-Rio e do COB.

     O governo (prefeitura e governos federais e estaduais) ia gastar R$ 720 mi., mas a fatura fechou em algo em torno de R$ 3 bi. A mídia, porém, desde o início praticamente não indicou estouro de orçamento nem atraso nas obras. Nada do tipo passou no Jornal Nacional, no Globo Esporte, na Record, na Bandeirantes. E isso ocorre porque tendo os direitos do evento, esses veículos de comunicação acabam por virar sócios do dono do evento, e assim, não o criticam.

     Foi prometido para o Pan, a despoluição da lagoa Rodrigo de Freitas e da baía de Guanabara e uma nova linha de metrô ligando o aeroporto à Barra da Tijuca. As coisas que seriam verdadeiramente importantes para o Rio de Janeiro não foram cumpridas.

     O Estado carioca matando indistintamente nas favelas, para que a TV Globo pudesse exibir os Jogos Panamericanos como se aqui fosse um exemplo de segurança pública – eliminados os pretos e pobres dos morros e conseguida a “paz” social, a forçada “conciliação” entre as classes sociais inculcada nas mentes alienadas.

     Um blog chamado A verdade do Pan fazia o cliping de tudo o que saía na imprensa e sérias acusações e críticas em relação à organização dos Jogos Panamericanos e ao Estado do Rio de Janeiro. Misteriosamente foi tirado do ar.

A cobertura da televisão

     Do dia 13 a 29 de julho, os jornais dos principais canais de TV aberta passaram apenas informações sobre o acidente da TAM e os jogos panamericanos. E a imagem da “cidade maravilhosa” era construída, enquanto se escondia embaixo do tapete as inúmeras mortes nos morros, seja de guerra entre traficantes ou com a polícia. No meio tempo dos Jogos, só para citar alguns dos numerosos acontecimentos e tragédias que foram ignorados pela mídia televisiva: três jovens suspeitos de terem assaltado um carro morreram num confronto com a polícia em Jardim Nóia, na altura da Favela do Dique; dia 26 corpos de dois homens de 20 e 25 anos foram encontrados na favela Para-Pedro em Irajá; dois jovens foram mortos no dia 15, em tiroteio com a polícia militar, garoto de 16 anos morreu vítima de bala perdida enquanto preparava café dentro de sua casa, em Jacarézinho. Isso sem citar a megaoperação policial ocorrendo no Complexo do Alemão, no qual de acordo com os números oficiais, 44 pessoas foram mortas e 78 feridas. O caso, conhecido como a “Chacina do Alemão”, chegou a ganhar repercussão internacional.

     Esses assuntos, porém, não foram frisados pela televisão. Preocupada em construir uma convencida imagem de saudáveis e fortes atletas americanos, canadenses e mexicanos chegando e competindo na “cidade maravilhosa”, limpa e paradisíaca do nosso país tropical, a TV Globo ganhou muito dinheiro disfarçado de patriotismo.

Saiba mais:

Folha de São Paulo

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A tragédia do escândalo em ano eleitoral. Ou não?

Publicado por dmekari em 2/Setembro/2007

Por Danilo Mekari

     Brasileiros, já passamos por uma crise energética, e pelo visto jogamos sua semente para o lado. E não é que ela brotou e cresceu em nossos vizinhos? Levou anos para a Argentina ser premiada pela falta de projeto sobre reservas energéticas, e que nós não zombemos deles, afinal já fizemos exatamente a mesma besteira.

     Além disso, os argentinos estão nos alcançando em outro quesito: o número de escândalos sobre suposta corrupção – ou, melhor ainda, no descobrimento deles. Dizem as más-línguas que já estamos empatados. Com muitos gols para cada lado.

     Em terras tupiniquins, o gado supostamente vale uma fortuna e o dólar é encontrado na cueca; no vizinho, há milhares deles em um banheiro de gabinete e numa maleta estrangeira.

     Mas é claro que há diferenças. Nossos “hermanos” estão em ano de eleições presidenciais e pouco mais de dois meses para o primeiro turno. Se o atual presidente Nestor Kirchner não terá participação no pleito, até que ponto denúncias de governo corrupto mudariam o rumo das votações?

     Simples. O sobrenome Kirchner estampa o folheto partidário de um candidato ao maior posto da nação. Ou melhor, de uma candidata que, se eleita, insistirá em ser chamada de presidenta – com “a”, pois para ela a conjugação no masculino é um “resquício de machismo”.

     A primeira-dama Cristina Fernández de Kirchner é favorita para assumir a Casa Rosada e pode levar a bolada mesmo no primeiro turno. O que ninguém sabe ainda é a repercussão dos escândalos no seu eleitorado.

     Baseando-se no passado recente de Lula – em 2005, quando foi denunciado o mensalão –, Cristina pode ficar (um pouco mais) tranqüila: se nenhuma denúncia acusá-la diretamente, ou a seu marido, o eleitor não vai demonstrar sua indignação no voto.

     E o que tem tudo para deixá-la menos tranqüila é o calendário. No caso brasileiro, o eleitor teve um ano para se esquecer dos problemas do governo. Os 365 dias entre a crise e a eleição foi um bom intervalo para todos esfriarem a cabeça, mas dois meses são quase nada.

     É importante ressaltar as diferenças do sistema eleitoral argentino em relação ao nosso, e na teoria o candidato eleito no primeiro turno não tem necessariamente o voto de mais da metade da população, visto que são precisos 45% para se eleger.

     As pesquisas contradizem, porém, a necessidade do medo por sucessivos escândalos em ano eleitoral – Cristina aparece com 47% das intenções de voto, demanda suficiente para conquistar seu lugar ao sol.

     E qual cidadão brasileiro duvida que ao apertar a tecla um, seguida da três, nas eleições presidenciais de 2010, aparecerá a foto de uma Marisa Letícia mais maquiada do que nunca?

Banheirogate

     No dia 24 de junho, seguranças do ministério da Economia faziam uma inspeção rotineira quando encontraram uma bolsa de papelão cheia de dinheiro – entre dólares, pesos e euros, totalizavam US$ 241 mil – no banheiro do gabinete. E esse foi o primeiro passo para a Argentina se afundar em um mar de denúncias e escândalos.

     A ministra titular da pasta, Felisa Miceli, alegou que o dinheiro encontrado era para uma transação imobiliária que não deu certo. Inevitavelmente, a Justiça iniciou uma investigação. E, pelo visto, sumiu dinheiro pelo ralo: a ministra declarou que havia US$ 64 mil na mala.

     Como, se a soma de seus bens não passam de US$ 26 mil?

     É lógico que a oposição não perdeu tempo e pediu a renúncia da ministra. E mais lógico ainda é o governo afirmar que não existem motivos para tal. Miceli garantiu que apresentaria documentos à Justiça que comprovariam que o dinheiro não passava de um empréstimo do seu irmão.

     E, vai saber, os documentos devem ter sumido pelo ralo também: a ministra renunciou no dia 16 de julho sem dar explicações.

Nova denúncia, novo ministério

     Três dias após a renúncia de Felina Miceli, outra suspeita de corrupção aflorou em terras argentinas. A ministra da defesa, Nilda Garré, rapidamente tratou de diferenciar-se da ex-colega Miceli, que demorou a dar explicações públicas quando descoberta a mala no banheiro, e falou à imprensa no mesmo dia em que saiu a denúncia envolvendo seu nome.

     “Não vou me complicar nem tenho nada que esconder”, disse a ministra. Ela foi chamada para prestar declarações sobre acusação de contrabando de armas para os Estados Unidos. Negou qualquer tipo de ligação com o esquema.

     A causa teve início quando foram travadas 6.700 peças de fuzis na Alfândega, que seriam vendidos por US$ 2,6 mil a uma empresa sediada em Connecticut, nos EUA, do argentino José Luiz Díaz. É um valor ínfimo para tamanha quantidade de armamento.

     Em entrevista, citou a “campanha suja” que a oposição vem supostamente fazendo para armar as denúncias contra funcionários do governo e não negou o subfaturamento das armas. “Mas isso excede minhas competências como ministra”, explicou.

     Enquanto isso, a secretária do Meio Ambiente, Romina Picolotti, foi acusada de nepotismo.

Contas suíças

     O jornal de oposição “Perfil” revelou que até hoje mais de US$ 500 milhões não foram repatriados à província de Santa Cruz pelo governo – Kirchner governou-a por 11 anos e até hoje é controlada por ele.

     Esse dinheiro, proveniente da exploração petrolífera, foi para a Suíça pouco antes da crise financeira, que quebrou o país em 2001, para evitar possíveis medidas econômicas de emergência. Kirchner afirmou que o governador que o sucedeu na província, Sergio Acevedo, repatriou o dinheiro.

     Ao mesmo tempo da nova denúncia, a candidata Kirchner era acusada de usar estrutura oficial – de seu marido – em campanha.

     Pode?

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Impunidade é privilégio da classe alta

Publicado por gabrielamoncau em 28/Agosto/2007

Por Gabriela L Moncau

     A juventude da classe alta do Rio de Janeiro demonstrou preconceito, totalitarismo, ignorância e irrascibilidade com o episódio ocorrido dia 22 de junho, ao espancarem no bairro da Barra da Tijuca a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto.

     Foram cinco jovens universitários e moradores de condomínios de luxo que espancaram e desumanizaram a mulher que aguardava no ponto de ônibus para se dirigir a um médico na periferia, Baixada Fluminense. Justificaram-se da agressão afirmando que a confundiram com uma prostituta. Segundo os valores e a moral dos jovens, então, uma mulher preta e pobre só pode ser uma prostituta e, sendo uma prostituta, ou seja, uma pessoa inferior a eles, merece ser espancada.

     O caso assemelha-se à morte do índio pataxó Galdino de Jesus, em 1997, que dormia no banco de uma praça em Brasília quando cinco jovens de classe média jogaram álcool e atearam fogo ao índio, dizendo depois que tentavam fazer uma “brincadeira”.

     A pergunta que ocorre a qualquer pessoa de sã consciência é: O que se passa na cabeça desses jovens? Jovens que, no caso, cresceram com família, casa, comida, e principalmente, escola. Talvez, o fato de pertencerem a uma classe privilegiada e de alto padrão de vida, trouxe a eles uma sensação de impunidade, inconsequência e onipotência. Com certeza há algum desvio ideológico na formação (provavelmente familiar) de cada um deles. Não entendem o que é uma prostituta, uma pessoa pobre, um índio, uma pessoa de outra cor de pele. Porém, cada pessoa é independente e tem seu próprio senso crítico, acredito que mesmo com valores distorcidos passados pelos pais dentro de casa, uma pessoa tem condições de questioná-los e não aceitar como absoluto qualquer ideal que lhe é transmitido pela família.

     A fala do pai de um dos meninos acusados pela agressão: “Não é justo prender cinco jovens que estudam, que trabalham, que têm pai e mãe, e juntar com bandidos que a gente nem sabe de onde vieram. Imagina o sofrimento desses garotos”. Um sofrimento que ele não parou para pensar é o de uma mulher espancada covardemente por cinco garotos enquanto apenas aguardava seu ônibus. Sim, foram colocados com outros bandidos, alguns que fizeram coisas menos graves que o ato cometido por eles, outros não. O comentário feito pelo pai já demonstra o caráter com o qual criou o filho e o pensamento de desumanização de pessoas de classe mais baixa ou mesmo de qualquer pessoa que não seja seu próprio filho e seus colegas.

     Um episódio como esse faz com que paremos para pensar também nas relações sociais estabelecidas na sociedade em que vivemos. Num sistema onde somente o lucro, o consumo e a praticidade são valorizados, as relações entre as pessoas passam a ser quantitativas, todos são rotulados de acordo com o benefício que podem trazer. Assim, já à primeira vista, uma pessoa é distinguida por sua classe social, o seu modo de sustento e a partir disso estabelece-se uma relação melhor ou pior. As relações sociais estão deixando ser qualitativas, começa-se a questionar se elas são realmente para o bem estar de todos.

     Os espancadores da empregada Sirlei, assim como muitos outros jovens ricos, estão sendo formados em ambientes nos quais a socialização, a educação e a humanização são substituídos por consumismo, banalização do conhecimento, superioridade e onipotência.

Saiba mais:

O Globo

O Estado de São Paulo

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Folha de São Paulo

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